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POSFÁCIO

  • há 5 dias
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1989 Congresso Nacional dos Bancários SP
1989 Congresso Nacional dos Bancários SP

O fio que costura a história do trabalho é antigo, tenso e resistente. Começa quando o progresso se ergue sobre o corpo dos pobres. As máquinas moíam até crianças. A Revolução Industrial iluminou as cidades — mas mergulhou milhões na escuridão da exploração.


A jornada começava antes do sol e terminava quando ele já se punha. As fábricas não tinham janelas, nem luz, nem ar. A vida era, literalmente, no escuro. O carvão que fazia as engrenagens girarem corroía os pulmões.


Nas famílias, todos trabalhavam — homens, mulheres, crianças. Mesmo assim, conseguiam alugar apenas um cômodo. Dormiam empoleirados: dez, doze pessoas num mesmo quarto. A dieta operária se resumia a pão, batata e mingau de aveia. Um homem ganhava de dez a quinze xelins por semana; as mulheres, metade; as crianças, um ou dois. Famílias inteiras sobreviviam com oitenta xelins por mês. Enquanto isso, um homem da aristocracia inglesa recebia oito mil.


Os relatórios parlamentares — o Sadler Report (1832) e o Ashley’s Mines Report (1842) — escancararam a perversidade oculta no progresso. William Cooper, ex-trabalhador infantil, contou ter começado aos dez anos: quinze horas por dia, das cinco da manhã às oito da noite, com apenas quarenta minutos de pausa. Elizabeth Bentley, operária do linho, começou aos seis; respirava poeira até perder a voz. O barulho das máquinas a deixou surda. Matthew Crabtree relatou os castigos: chicotes para manter o ritmo, espancamentos por exaustão. E Patience Kershaw, menina de sete anos, arrastava vagões de carvão por túneis quentes e estreitos — sem roupas, pelo calor sufocante.


Esses testemunhos chocaram o Parlamento. O Factory Act de 1833 proibiu o trabalho de crianças menores de nove anos e instituiu inspetores nas fábricas. O Mines Act de 1842 baniu mulheres e meninos de menos de dez anos do trabalho subterrâneo nas minas. As primeiras leis, tímidas, deram nome à injustiça.


Foi então que Friedrich Engels, em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1845), escreveu o diagnóstico mais cru da modernidade:


“A pobreza não é acidente — é produto.”


Engels descreveu as ruas de Manchester cobertas de lama e de crianças famintas. Os esgotos a céu aberto. O cheiro do carvão misturado ao da morte. Registrou o homem transformado em engrenagem — e a miséria, em método.


As Trade Unions britânicas criaram modelos duradouros. A Amalgamated Society of Engineers (1851) instituiu benefícios de auxílio-doença e seguro-desemprego. O Trades Union Congress (1868) coordenou as lutas pela jornada de oito horas e inspirou o surgimento do Partido Trabalhista.


A mobilização começou a atravessar fronteiras — da Inglaterra à França, da Itália aos Estados Unidos. Em 1886, em Chicago, operários tomaram as ruas e fizeram nascer o 1º de Maio — o dia universal da classe trabalhadora.


Na França, a Confédération Générale du Travail (1895) incendiou a Europa com o sindicalismo revolucionário. Nos Estados Unidos, a American Federation of Labor (1886) e, depois, os radicais Industrial Workers of the World (1905) pregaram a unidade dos ofícios e a força da greve geral.


No início do século 20, o movimento tornou-se global. A criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 1919, deu forma institucional à luta por justiça social. Na Espanha, a Confederación Nacional del Trabajo (1910) espalhou o ideal da autogestão operária. Na Alemanha, os conselhos de fábrica (Betriebsräte) introduziram a ideia de gestão coletiva das empresas.


No Brasil, a industrialização tardia ergueu uma nova classe assalariada nas fábricas de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. A ela se somaram milhares de imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, que trouxeram da Europa — no fim do século 19 — ideias libertárias: o anarquismo, o socialismo e a convicção de que a dignidade se conquista, porque nunca é concedida.


O anarquismo foi a primeira força organizada. Pregava a ação direta, a autonomia sindical e a solidariedade de classe. Rejeitava partidos e o Estado, acreditando que a libertação só viria pelas próprias mãos dos trabalhadores.


As primeiras formas de organização surgiram como sociedades mutualistas — redes de auxílio mútuo a doentes, desempregados e viúvas, além de espaços de convivência e solidariedade. A Sociedade Italiana de Beneficência e Mútuo Socorro, fundada em 1854, no Rio de Janeiro, foi uma das mais antigas.


Com o avanço da industrialização, o mutualismo deu lugar ao associativismo sindical. A Associação dos Tipógrafos, criada em 1858, é considerada uma das primeiras organizações operárias do país. Poucos anos depois, em 1903, surgiu a União dos Operários Estivadores de Santos.


Em 1906, o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, realizado na sede do Centro Galego, no Rio de Janeiro, reuniu delegados de 28 associações e sindicatos e lançou as bases da Confederação Operária Brasileira (COB) — o primeiro organismo nacional dos trabalhadores. Jornais como A Plebe e O Amigo do Povo circulavam por oficinas, portos e fábricas.


Em 1917, São Paulo incendiou. A greve geral, iniciada por tecelões, logo se espalhou pelos bairros operários e paralisou a cidade. Tudo parou. Fábricas, bondes, padarias. Mais de setenta mil trabalhadores cruzaram os braços contra salários miseráveis, jornadas de até quatorze horas e o preço absurdo dos alimentos. Foi o auge do anarquismo, brutalmente reprimido. Dezenas de mortos, centenas de feridos, prisões em massa. O estopim da comoção foi a morte de José Martínez, jovem operário baleado pelas costas pela polícia durante protesto no bairro do Brás. O cortejo fúnebre virou marcha; a marcha, levante.


De São Paulo, o movimento contagiou Santos, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Belém — e virou notícia no país inteiro. Sob pressão, os patrões foram obrigados a negociar. Concederam aumento de 20%, prometeram reduzir a jornada e libertar os presos. A cidade voltou ao trabalho — mas não igual.


Nos anos 1920, socialismo e comunismo passaram a disputar espaço na organização dos trabalhadores. A fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1922, marcou o início de um sindicalismo de orientação política. Enquanto os comunistas defendiam a conquista do poder e a criação de um Estado socialista, os anarquistas mantinham a fé na autogestão e na ação direta. Essa tensão, longe de fragmentar o movimento, tornou-se a mola propulsora do sindicalismo brasileiro.


Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas redesenhou o mapa do trabalho. Criou leis específicas, um ministério próprio e uma nova moldura institucional para o sindicalismo. Foi nesse cenário, entre rupturas e reconfigurações, que nasceu o Sintrafi — 25º sindicato oficialmente registrado no Brasil, segundo dados do IBGE — herdeiro direto dessa longa e resistente teia de lutas. 


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