CAPÍTULO 7 - Euforia nacional
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Desde a segunda metade da década de 1950, o país parecia marchar a passos largos rumo ao futuro. O desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek prometia “cinquenta anos em cinco”, e o projeto da nova capital — planejada sobre o chão vermelho e quebradiço do Cerrado — simbolizava a modernidade. Era o sonho dourado do presidente bossa nova, que embalava o Brasil em seu auge de industrialização. A promessa de progresso parecia ilimitada, e o otimismo de JK contaminava as fileiras do movimento sindical, que ganhava novas estruturas e um papel cada vez mais presente no debate público.
Na capital federal, Rio de Janeiro, essa energia fervilhava no Sindicato dos Bancários da Guanabara. Sérgio Pires Ferreira, com quase cem anos, recordou aquele tempo com a memória viva daquele tempo em ebulição:
“Em janeiro de 1952 entrei para o Banco do Brasil, agência Copacabana — e já fui direto para o sindicato. Formamos uma comissão, e eu acabei sendo o porta-voz: transmitia aos colegas tudo o que acontecia, distribuía jornais com palavras de ordem, ia quase todas as noites ao sindicato. Ali discutíamos os assuntos da classe; havia até palestras sobre petróleo — o grande tema do momento.”
O entusiasmo era contagiante:
“Participei de todas as negociações salariais, de greves monumentais que reuniram mais de dez mil pessoas. Fazíamos piquetes na porta dos bancos, na esquina da Presidente Vargas com a Rio Branco — eu chefiava o piquete da minha agência. Lembro do dia em que Carlos Lacerda foi lá arrancar nossos cartazes. Reagi: ‘Que disparate, governador!’ Ele mandou me prender. A polícia me levou para longe dos olhos dele e disse: ‘Vamos te soltar, corre!’ — nós já tínhamos conquistado os policiais com cafezinhos e tickets de almoço.”
Enquanto isso, em Florianópolis, o movimento também era de fervor. A ação do Sintrafi já era maior que a pequena sala na Rua dos Ilhéus, 21. Em 26 de maio de 1955, a Delegacia Regional do Trabalho autorizou a liberação de recursos do Sindicato para a compra de um prédio na esquina da Arcipreste Paiva com a Vidal Ramos. A diretoria — formada por Abel Capella (presidente), Sílvio Peluso (secretário) e Luiz Medeiros (tesoureiro) — parecia prestes a realizar um sonho antigo. Mas o negócio não se concretizou: o vendedor descumpriu os prazos de entrega e acabou devolvendo o valor à entidade.

Em 23 de fevereiro de 57, os bancários se reuniram em assembleia geral, às 15h, para decidir pela compra do prédio de Luiz Eduardo de Oliveira Santos, à rua Tiradentes, 20. Os bancários presentes aprovaram por unanimidade a proposta. Faziam parte da diretoria Oldemar Veiga Magalhães (presidente), Cláudio Olinger Vieira (secretário geral) e Waldir Carreirão (tesoureiro). Em abril, o Ministério do Trabalho autorizou o Sindicato a adquirir a sede própria.
A conquista era o resultado da trajetória construída desde o início da década. Carmelo Mário Faraco esteve à frente do Sindicato por dois mandatos e, embora não restem registros oficiais, é provável que tenha sido entre 1951 e 1954. Antes de Faraco, o Sindicato fora presidido por Jayme Pigozzi. Os mandatos eram bienais. Abel Capella, bancário e dentista, que hoje é nome de rua em Coqueiros, levou Faraco para o Sintrafi. O esforço foi para manter a entidade como um órgão de defesa da categoria, num tempo em que a ideia de sindicato ainda oscilava entre o assistencialismo e a luta de classes.

A ideia de criar o gabinete dentário, com a colaboração decisiva de Abel Capella, cirurgião-dentista, surgiu nesse contexto:
“O trabalho de dentista não tem nada a ver com o sindicato, mas era uma forma de dar alguma coisa para que a classe se sentisse organizada, unida”, avaliou Faraco.
Ele e seus companheiros investiram em transparência. Os livros de contas da entidade permaneciam expostos na sede para o exame de qualquer sócio. Um funcionário foi contratado para atender à categoria. O Sindicato passou a editar um boletim, a Tribuna Bancária, alimentado pelas informações recebidas, pelo correio, de sindicatos do centro do país.

Em 1959, a diretoria do Sindicato, encabeçada por Osny Laus (presidente) e João José Ramos Schaeffer (secretário), apresentou sua proposta de novo estatuto, que foi aprovada. O texto consolidou o suporte legal de uma ação política mais ampla, que já se esboçava desde o início da década. Entre 1951 e 1955, os bancários participaram da Comissão do Salário Mínimo, conforme estabelecia a lei, representados por seu ex-presidente João Cândido Rodrigues. Integravam a Comissão Job Valentim, Osny Laus e Waldir Carreirão, tendo como suplentes Sílvio Rigueira Peluso, Walmor Pires e Armando Silveira de Souza.
Como outras categorias, os bancários iniciaram um processo de organização nacional, consolidado com a criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Crédito (Contec), em 1958. A categoria conquistou duas reivindicações históricas: a jornada de trabalho de seis horas e a aposentadoria por tempo de serviço.

A década de 1950 terminava com o Sintrafi mais estruturado — com sede própria, estatuto renovado e presença ativa nos fóruns nacionais. De um pequeno grupo reunido em assembleias modestas, surgia uma entidade capaz de representar a categoria em escala estadual e dialogar com o movimento nacional. O país parecia avançar — e o sindicalismo, amadurecer.



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