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CAPÍTULO 6 - Democracia Interrompida

  • há 3 dias
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A Tribuna Bancária número 7, de janeiro de 1960, divulgava a festa de posse da nova diretoria e a criação, no dia 11, da Associação Inter-Sindical, promovida pelo Sintrafi. Onze sindicalistas — representando as categorias de comerciários, trabalhadores do ramo de minérios, operários da construção civil, dentistas, barbeiros e trabalhadores em hotéis e similares — participaram do evento.


Praia da Saudade, Coqueiros, 1960-1970
Praia da Saudade, Coqueiros, 1960-1970

O perfil de atuação ampliava-se também dentro das fileiras do Sindicato. A nova diretoria definiu coletivos para atuar em uma série de departamentos com tarefas específicas: feminino, jurídico, previdência social, planificação, estatística e assuntos econômicos, cultural e social. A entidade manifestava apoio às greves de outras categorias, como a dos mineiros de Criciúma, e participava de eventos nacionais, como a I Convenção Nacional dos Bancários, realizada entre 24 e 30 de março, no Rio de Janeiro.


A vitalidade sindical dos anos finais da década de 1950 refletia o clima, otimismo desenvolvimentista de JK, crescimento econômico e confiança no diálogo social. Mas a estabilidade era aparente. As contradições do modelo de crescimento — inflação em alta e desigualdade persistente — começaram a corroer o pacto trabalhista que sustentou a era Vargas. O sindicalismo entrava nos anos 1960 mais organizado, mas também mais vulnerável às tensões políticas.


A eleição de Jânio Quadros, em 1961, pareceu trazer alívio à burguesia brasileira — alívio breve. Sua fragilidade política tornou-se evidente desde o início. A renúncia, sete meses após a posse, apenas confirmou o que já se sabia. Jânio não tinha base nem alianças capazes de sustentar a governabilidade.


Vista parcial de Florianópolis, década de 60. No primeiro plano a rua Conselheiro Mafra, a esquerda Alfândega e a Baia Sul antes do aterro de 1972
Vista parcial de Florianópolis, década de 60. No primeiro plano a rua Conselheiro Mafra, a esquerda Alfândega e a Baia Sul antes do aterro de 1972

O início da década foi marcado por uma sucessão de greves em várias categorias, em torno de bandeiras semelhantes: reajustes salariais, combate à carestia, 13º salário e salário-família. Entre os bancários, as reivindicações incluíam o fim do trabalho aos sábados, estabilidade após dois anos de serviço e o direito de discutir com os sindicatos a introdução dos computadores mainframes, com linguagem COBOL, nas agências — tecnologia que gerava desconforto e começava a ameaçar empregos.


Foi em torno destas pautas que os bancários voltaram a realizar uma greve nacional, apenas dois meses após a renúncia de Jânio. O primeiro segmento a parar em todo o país foi o dos funcionários do Banco do Brasil, que, desde o segundo governo Vargas, exerceu hegemonia sobre o movimento sindical bancário em praticamente todos os estados. E conquistaram reajuste de 40% — superior à proposta dos patrões — e a promessa de estudos para novo salário mínimo da categoria.


Em agosto de 1962, foi fundado o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) — organização intersindical articulada em defesa da melhoria das condições de trabalho e das “reformas de base” propostas por João Goulart.


A CGT organizou uma greve nacional nos dias 15, 16 e 17 de setembro. Os bancários conquistaram aumento semestral de 60%, quinquênio e gratificação mínima para cargos em comissão. E, como saldo simbólico da paralisação, o Congresso aprovou, no fim do ano, a extinção do trabalho aos sábados. Em Florianópolis, os bancários aderiram à paralisação apenas no dia 20, junto com os de São Paulo e Paraná.


“Faltar com a nossa solidariedade concreta e nossa decidida tomada de posição seria renunciar à luta — atitude que não se compadece com a consciência de classe que temos, nem com a certeza da justiça do que reivindicamos”, afirmava a nota do comando do movimento, publicada em O Estado.


O movimento, iniciado cinco dias antes, contava com o apoio da imprensa carioca. A Gazeta cobrava, com ironia:


“Que os banqueiros fumem menos charutos e deem mais cruzeiros aos bancários.”


Em razão da greve, o comércio de Florianópolis passou, pela primeira vez, a receber dinheiro diretamente da agência do Banco do Brasil de São Paulo.


“Piquetes foram formados pelos grevistas nesta capital, frente à agência do Banco do Brasil, a fim de que a mesma não seja furada e assim obter sucesso quase que imediato”, informava A Gazeta.


O presidente da entidade era Carlos Passoni Júnior, funcionário do Banco do Brasil que, muitos anos depois, enfrentaria novas greves do outro lado da mesa — como presidente do recém-criado Banco do Estado de Santa Catarina.


Em entrevista concedida ao informativo O Bancário, o próprio Passoni recordou:


“A nossa gestão viveu uma época difícil, com constantes greves e a cautela de não se ter a infiltração de elementos de fora da classe do Sindicato, o que era normal naquela época em outros órgãos.”


Naquele início de década, o Sindicato representava cerca de trezentos bancários. Existiam, na capital, os seguintes bancos: Hércules, Inca, Nosso Banco, Banco Nacional do Comércio (Banmércio), Banco da Lavoura, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco do Distrito Federal.


Em 6 de dezembro de 1962, os funcionários do Banco do Brasil voltaram à greve contra o projeto de reforma bancária apresentado pelo deputado federal Daniel Faraco. O texto previa a criação de um Banco Central e de um Banco Rural, esvaziando o Banco do Brasil de parte de suas funções históricas. Naquele tempo, a Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc) — vinculada ao próprio BB — ainda concentrava o papel de regular o sistema financeiro.


A paralisação foi encerrada apenas após a promessa de João Goulart de retirar o projeto e instituir uma comissão para estudá-lo. A reemergência do movimento sindical era, em parte, patrocinada por Goulart e por seu partido, o PTB.


Em meados de 1961, Carlos Passoni deixou a presidência do Sindicato, sendo sucedido por Carlos José Gevaerd, que comandaria a adesão dos bancários catarinenses à greve de 1963. A assembleia da categoria, realizada em 16 de setembro, decidiu pela paralisação a partir da zero hora do dia seguinte:


“Em face da intransigente posição da classe patronal, que, insensível ao gravíssimo problema salarial dos bancários, vai se recusando sistematicamente a sequer discutir as bases de um novo acordo”, registrou A Gazeta.


Em Santa Catarina, o governo apostava que o futuro poderia ser financiado — e decidiu criar um banco público que simbolizasse o avanço industrial e a modernização. Nasceu em meio à turbulência política que precederia o golpe.


“Hoje se cumpre a meta fundamental do meu governo. Penetrei a realidade catarinense como poucos o fizeram e concluí que o banco é uma imposição do progresso estadual. Ele não nasce ao improviso. Aqui terão vez muitos dos que nunca tiveram o benefício do crédito. É seguro o bom resultado.”


Sob aplausos, o governador Celso Ramos encerrava o discurso na tarde de 15 de janeiro de 1962, quando se elegeu a primeira diretoria. Criado pela Lei nº 2.719, de 27 de maio de 1961, com o nome de Banco de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (BDE) — mais tarde rebatizado como BESC —, o banco seria o eixo de sustentação do governo Ramos. O projeto era ambicioso, transformá-lo em um motor do desenvolvimento regional, emblema do moderno.


Com capital inicial de Cr$ 300 milhões — cerca de US$ 1,5 milhão à época —, 1.924 acionistas e quinze funcionários, o BESC abriu suas portas no número 1 da Praça XV de Novembro, no centro de Florianópolis, a poucos metros da sede do Sintrafi. No dia seguinte, os atendimentos começaram. Ao final de 1963, o banco já contava com dez agências espalhadas pelo Estado, sustentando o projeto desenvolvimentista de Celso Ramos — seu sonho de modernização que, poucos meses depois, seria engolido pelo autoritarismo militar.


Quando Jango livrou-se das amarras do parlamentarismo, o movimento sindical ganhou fôlego raro. Pela primeira vez desde Vargas, parecia possível unir governo e trabalhadores em torno do mesmo projeto social. A breve convergência populista, porém, soou como ameaça entre os empresários nacionais e as corporações multinacionais. A adesão popular tornou-se o fermento da conspiração que seria deflagrada em abril de 1964.

1964, tanques militares ocupam Palácios como o das Laranjeiras, RJ
1964, tanques militares ocupam Palácios como o das Laranjeiras, RJ

O golpe de 1964 foi mais do que uma quartelada: foi uma resposta coordenada entre banqueiros, industriais e o capital internacional ao avanço das forças progressistas no país. O modelo econômico implantado a partir dali beneficiaria poucos. Amparados na generosidade do Estado e na fartura de crédito externo, os empresários investiram na formação de um parque industrial moderno, mecanizaram os latifúndios e organizaram a produção para atender a um consumo restrito. Mas nenhum setor prosperou tanto quanto o sistema financeiro.


A reforma bancária de 1964 foi o primeiro ato de um projeto de poder. O novo arranjo concentrou riquezas, reduziu a concorrência e internacionalizou o lucro. Em 1960, as instituições financeiras participavam com apenas 3% do Produto Interno Bruto; em 1989, essa fatia já era de 19,5% — um salto histórico, alimentado pelo endividamento público e pela especulação privada.


Três movimentos definiram o período: o da centralização, que enxugou o número de bancos — de 368 em 1960 para 111 após vinte anos; o da concentração, que transferiu o grosso dos recursos para um punhado de instituições gigantes, capazes de ditar as regras do mercado e influenciar a política; e o da internacionalização, com a entrada direta de bancos multinacionais e a associação entre capitais estrangeiros e nacionais.


O sistema financeiro estava blindado. A Ditadura garantia segurança política aos grandes investidores; em troca, o capital assegurava estabilidade aos generais.


Enquanto o país se reorganizava de cima para baixo — no compasso dos grandes bancos, das novas leis e das fardas —, o golpe começava a mostrar seu rosto real nas esquinas. E, em Florianópolis, entrou pela porta da frente.


Estudante é preso durante a chamada Sexta-feira sangrenta, no Centro do Rio de Janeiro (1968)
Estudante é preso durante a chamada Sexta-feira sangrenta, no Centro do Rio de Janeiro (1968)

Os militares agiram rapidamente. Invadiram o Sintrafi, rasgaram documentos, livros de atas, empilharam papéis no meio da rua e fizeram uma fogueira. O empastelamento destruiu trinta anos de memória.


Uma centena de bancários que, semanas antes, se reunia para decidir se entrava ou não em greve passou a ajustar as rotinas ao compasso da disciplina militar: casa–trabalho–casa. Nenhum passo fora do ritmo imposto em 1º de abril.


Nem precisou. Da diretoria do Sindicato, eleita em 1963 e formada exclusivamente por anticomunistas, todos foram cassados — exceto o segundo tesoureiro, Ênio Machado de Andrade, que ficou para contar a história.


O presidente, Ademi Pereira de Abreu — diácono da Catedral Metropolitana por muitos anos —, liderou logo após o golpe o grupo anticomunista que ateou fogo à livraria dos escritores Salim Miguel e Eglê Malheiros, na Praça XV. Nem por isso escapou da repressão: foi cassado. O ex-presidente Carlos José Gevaerd foi preso logo depois do golpe, ainda no Rio de Janeiro, onde participava de uma reunião de dirigentes da Contec. Passou dias encarcerado, com a água pela canela, até conseguir provar que apoiava a Ditadura. Ser dirigente sindical, em si, era motivo suficiente para suspeita.


Gevaerd e seus companheiros foram imediatamente cassados e transferidos para agências distantes — no Amazonas ou em Mato Grosso. Decepcionado, ele pediu demissão do Banco do Brasil e passou a lecionar na UFSC.


Amarrar a ação política das entidades sindicais era meta explícita da elite orgânica que articulou o golpe. Com farto financiamento internacional — sobretudo norte-americano —, organizou-se uma campanha de ocupação ideológica. Entre 1963 e 1970, mais de trinta mil pessoas foram treinadas em programas de “formação anticomunista”, criados para garantir que qualquer embrião de sindicalismo contestatório fosse sufocado.


Os efeitos foram imediatos. Os militares intervieram em centenas de sindicatos em todo o país. Dirigentes foram cassados, presos e exilados — história repetida em cada capital. Uma das primeiras medidas do novo regime, o Ato Institucional nº 1, cassou os direitos políticos de 376 trabalhadores do Banco do Brasil.


A intervenção no Sintrafi só não se consumou graças à mediação da titular da Delegacia Regional do Trabalho, que garantiu aos militares que “no Sindicato só tinha gente boa”. O interventor já estava até nomeado — um advogado —, mas a promessa de “lealdade” bastou para suspender a ação.


O balanço do estrago, porém, só pôde ser feito meses depois. Quando Ênio voltou a entrar na sede da entidade, o prejuízo era irreparável. Somente uma pequena parte dos documentos foi salva às pressas na Federação dos Bancários. Num sobrado da Rua Tiradentes, havia um sótão discreto — perfeito para driblar a censura.


Ênio, segundo tesoureiro, assumiu interinamente a presidência, articulou nova chapa e, nas eleições de 1965, foi eleito presidente. Em 29 de outubro, o Departamento Nacional do Trabalho autorizou a diretoria a alienar o prédio da Rua Tiradentes, nº 20, para adquirir salas no Edifício Tiradentes, na esquina da Nunes Machado. A mudança havia sido aprovada meses antes, em assembleia realizada em 7 de março. O documento trazia a assinatura do então ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho — o mesmo que, no dia 13 de dezembro, assinaria com o presidente Costa e Silva o Ato Institucional nº 5, o golpe dentro do golpe.


Mas nem todas as diretorias do Sintrafi, durante os Anos de Chumbo, se aconchegaram nos braços do poder. Entre 1969 e 1972, um pequeno núcleo de militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) conseguiu assumir a direção. Foi uma gestão breve, mas simbólica — três anos em que, mesmo sob vigilância e censura, o Sindicato voltou a respirar por conta própria. Esboçou, nas entrelinhas de seus boletins e em reuniões discretas, os primeiros traços de resistência.


Ênio, já eleito presidente da Federação dos Bancários, foi substituído no Sindicato, nas eleições de 1967, por Herbert Hadlich. A nova gestão, porém, seria interrompida de forma abrupta. Hadlich trabalhava como escriturário do Banco Inco quando, no fim de uma tarde, caiu fulminado por um infarto.


Consternado com a tragédia, o Sindicato escolheu Pedro Natali como sucessor. Nos anos seguintes, Natali também assumiria a presidência da Federação dos Bancários, após Ênio dedicar-se à Cooperativa Habitacional Intersindical.


À sombra dessa gestão, uma nova composição começou a se formar — ligada ao PCB, que, embora clandestino, buscava manter presença nas universidades, nos sindicatos e nas organizações operárias. O núcleo inicial já não estava mais no Banco do Brasil, como era tradição, mas no BESC.


Diretores da Associação dos Funcionários do BESC catalisaram a formação de uma oposição a partir de uma pequena publicação chamada O Centavo. Nos artigos, os bancários Gerônimo Wanderley Machado e Nelci de Andrade criticavam a política de recursos humanos do banco e denunciavam as práticas repressoras da diretoria.


Gerônimo, funcionário desde 1966, estudante de Economia e militante do movimento estudantil da UFSC, teve sua candidatura cassada em 1969, nas


eleições do Diretório Central dos Estudantes — um dos tantos sinais de que o cerco do regime se estendia também às universidades.


Desse núcleo da Associação sairia a chapa que venceria as eleições para a nova diretoria do Sindicato em 1969. Enquanto isso, o BESC se ajustava às novas regras do sistema financeiro e crescia de forma vertiginosa.


O novo presidente do Sintrafi, Valei Lacerda, era funcionário do Banrisul. O objetivo do grupo era manter viva a ação política sem abandonar o eixo assistencialista na tentativa de driblar a vigilância militar. Mas a diretoria logo começou a se fragmentar, enfraquecendo sua capacidade de mobilização. Muitos militantes, como o próprio Lacerda, temiam represálias patronais.


O medo se entranhou no rastro do AI-5. Defender ideias podia custar o emprego — ou a vida 


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