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CAPÍTULO 9 - Trama fundadora

  • 27 de abr.
  • 6 min de leitura

Suspenso entre a herança colonial e a modernidade vacilante trazida pela revolução que levou Getúlio Vargas ao poder, o Brasil moldava uma nova relação com o trabalho nos anos 1930.


A Carta de 1934, um dos totens da Era Vargas, representou um avanço inédito no reconhecimento dos direitos trabalhistas. O país deixava de ser essencialmente rural e começava a erguer sua indústria. Com o operariado urbano, surgiam novos sindicatos. Pela primeira vez, a Constituição garantiu conquistas fundamentais: jornada de oito horas, repouso semanal obrigatório, férias remuneradas, indenização por demissão sem justa causa, licença-maternidade e a proibição do trabalho infantil.


Mestre do “cravo e da ferradura”, Vargas, enquanto concedia avanços históricos à classe trabalhadora, criava também os instrumentos de repressão para contê-los. Em março de 1935, promulgou a Lei de Segurança Nacional, usada para esmagar a insurreição comunista. O estado de sítio decretado em seguida seria o ensaio do autoritarismo que se consolidou dois anos depois.


Em 1935, o governo atravessava turbulências em suas bases de sustentação. A aliança entre os militares rebeldes das revoltas de 1922 e 1924 e os políticos das oligarquias regionais — excluídas da hegemonia paulista e mineira — começava a se desintegrar. A Revolução de 1930, que prometeu um novo pacto federativo, transformou-se em concentração de poder no Rio de Janeiro.


Em Santa Catarina, crescia a sensação de esvaziamento político:


“A Revolução de 30 desarticulou a vida intelectual de Florianópolis, introduziu um grande contingente gaúcho no interior do Estado, acentuando a subordinação local aos interesses do Rio Grande do Sul e, por consequência, o afastamento dos catarinenses dos centros de decisão do governo federal”, escreveu o jornalista e historiador Glauco Carneiro.


Em Florianópolis, o Sintrafi surgiu justamente neste fervor.


Maio de 1935 foi um mês particularmente seco na história do Estado. Florianópolis ardia sob o sol e sofria com a falta d’água.


“A prolongada estiagem, talvez a maior de que há memória, tem contribuído para a falta de luz quase completa em que mergulha a cidade. Maio vem incendiando a terra, banhando-a no oiro fulvo da sua luminosidade”, registrou o cronista José Diniz em O Estado.


Na última semana do mês, a temperatura máxima rondava os 23 graus ao meio-dia. Os moradores buscavam distrações para quebrar a monotonia das horas lentas. No Jardim Oliveira Bello, o escultor José Tamborilli atraía curiosos com suas estátuas de areia. À noite, os cinemas exibiam dramas e aventuras; e, aos domingos, famílias inteiras passeavam em carrinhos de burro até a Estação Agronômica. Às margens desse cotidiano pacato, nascia uma consciência nova. A cidade, ainda meio adormecida, era terreno improvável para as sementes da mobilização social. Mas o inesperado aconteceu.


Apesar da seca, o assunto mais barulhento dos jornais era a greve dos trabalhadores de hotéis, restaurantes e similares, que já se estendia por quase um mês. Os empregados pediram reajustes de 10% a 30% nos salários, congelados desde os anos 1920. Os patrões, indignados, chamavam o movimento de “radical” e juravam que não cederiam — cederam! Sob pressão da opinião pública e, surpreendentemente, com o apoio do jornal A Gazeta, os trabalhadores venceram.


Embalados pelos fatos, um núcleo forte de militantes comunistas começou a se articular em Florianópolis, empenhado em unir os sindicatos existentes sob pautas comuns e abrir espaço na esfera pública. O Sindicato da Construção Civil


— que reunia operários, carpinteiros, eletricistas e metalúrgicos — liderava, na segunda metade de 1934, um movimento pelo piso salarial. Houve pequenas vitórias e algumas rupturas.


Segundo Manoel Alves Ribeiro, citado pelo jornalista e escritor Celso Martins em Os Comunas, a primeira greve na capital ocorreu em 1931, liderada pelo Sindicato dos Padeiros. Durante três dias, os fornos ficaram frios — tempo suficiente para obrigar os patrões a cederem. Pouco depois, foram os carroceiros que cruzaram os braços por dois dias, exigindo aumento. O pão e o transporte, bases do cotidiano, pararam pela primeira vez por decisão dos trabalhadores.


No inverno de 1935, os comunistas tentaram fortalecer a organização sindical criando a Coligação dos Sindicatos — uma espécie vanguardista da CUT. Num sábado de julho, reuniram-se na Rua Conselheiro Mafra, 25, representantes de quase todas as categorias urbanas. O ex-deputado comunista Álvaro Ventura discursou: censurou “os que se aproveitam das situações para massacrar os trabalhadores” e pediu apoio à nova Coligação.


A iniciativa seria interrompida pelo golpe de 1935. O cerco ao PCB a faria desaparecer. Ficou como legado a ideia de que a luta dos bancários fazia parte de algo maior. A Coligação expôs as duas correntes que se formavam no sindicalismo catarinense: de um lado, os comunistas e socialistas; de outro, as lideranças conservadoras, mais próximas do modelo corporativo.


O movimento sindical brasileiro entre o fim do século 19 e início do 20 foi moldado pelos anarquistas — os primeiros a organizar greves e a conquistar, no Congresso, leis sobre acidentes de trabalho, estabilidade e aposentadoria. As mutuais funcionavam como redes de solidariedade, atenuando a ausência de leis.


Entre os bancários, a primeira dessas mutuais surgiu em 1907, em São Paulo. Outras se espalharam logo depois, mas todas com perfil assistencial, não político. A primeira greve da categoria viria apenas em abril de 1932 e, dois anos mais tarde, em 1934, ocorreria a primeira greve nacional dos bancários. Em Florianópolis, ninguém soube — os jornais sequer noticiaram.


A repercussão, no entanto, foi sentida. Em 9 de julho de 1934, Vargas criou o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários (IAPB), incorporando, dois anos depois, quase todas as caixas beneficentes existentes.


O movimento nacional impactou o solo catarinense. A Capital, ainda provinciana, começou a articular organizações. Entre os bancários, cresceu o desejo de existir além das folhas de pagamento e de fundar uma entidade própria, assim surgiu o Syndicato dos Bancários de Santa Catharina, primeiro gesto coletivo de uma categoria até então dispersa.



João Cândido Rodrigues, primeiro Presidente
João Cândido Rodrigues, primeiro Presidente

De perfil moderado e respeitado entre os colegas, João Cândido Rodrigues, funcionário do Banco Nacional do Comércio, liderou a fundação em 24 de maio de 1935. Nada saiu nos jornais. Restou apenas a certidão amarelada e carcomida, guardada no arquivo histórico da Delegacia Regional do Trabalho:


“O Ministro do Estado dos Negócios do Trabalho, Indústria e Commércio, em nome do Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, faz saber a quantos esta Carta vir em que, attendendo ao que requereu o Syndicato dos Bancários de Santa Catharina, com séde em Florianópolis, Estado de Santa Catharina, resolveu approvar os respectivos estatutos e reconhecel-o como syndicato profissional de empregados, por despacho de 13 de novembro de 1935, proferido no processo D.N.Tn. 18830/1935, nos termos da legislação em vigor. E, para firmeza, mandou passar a presente Carta, que vae por elle assignada. Rio de Janeiro, 4 de janeiro de 1936.”


João Cândido Rodrigues viveu até 1988, na casa açoriana da Rua General Bittencourt. Sua esposa, dona Laura, guardava com carinho as fotografias dos anos 1930. Dos seis filhos, Marilde, quase centenária, mantém viva a memória do pai. Ele ingressou no Banco Nacional do Comércio aos 21 anos, como escriturário. Trabalhou por décadas, levava “as escritas” à bico de pena para casa, e ainda achava tempo para ler Monteiro Lobato aos filhos — livros considerados subversivos pelo Estado Novo.


“O bom mesmo era ser funcionário do governo, porque funcionário particular é muito explorado”, dizia.


João Cândido partilhava do entusiasmo da CLT quando aceitou ser o primeiro presidente do Sindicato. Presidiu de 1935 até meados de 1942. Nunca teve liberação sindical: dividia-se entre o banco e as reuniões noturnas — tinha saúde frágil, mas uma firmeza inabalável.


O país vivia sob o fascínio da modernização prometida por Vargas, e o Sindicato recém-criado trazia a mesma empolgação. Entre o sonho de representar uma nova classe trabalhadora e as limitações de uma categoria pequena, o Sintrafi ensaiava os primeiros passos.


A primeira década de vida do Sindicato seria marcada menos pela ação política e mais pela convivência entre os bancários. Reuniam-se no sobrado da Rua dos Ilhéus, esquina com Anita Garibaldi. No andar de cima, havia a venda do seu Lauro; no térreo, a Crédito Mútuo Predial; ao lado, o dentista Gustavo Mello, com seu boticão barulhento.


Entre partidas de dominó e discussões sobre política, o Sindicato se afirmava como ponto de encontro — essencial para manter a ideia de pertencimento.


A década terminou sob um paradoxo: o Estado fabricava cidadãos obedientes, o capital fabricava lucros. Entre as duas máquinas, João Cândido e seus colegas teceram manualmente a rede que sustentaria o futuro. 


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