CAPÍTULO 8 - Greve Inaugural
- 28 de abr.
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Em meados da década de 1940, havia em Santa Catarina menos de dois mil bancários — e, destes, cerca de quatrocentos viviam em Florianópolis. As instituições financeiras se resumiam ao Banco do Brasil, Banco Inca, Caixa Econômica Federal, Banco do Distrito Federal (na Rua Trajano, nº 23), Banco Nacional do Comércio — que depois se tornaria o Sulbrasileiro e, mais tarde, o Meridional —, além do Banco de Crédito Popular e Agrícola de Santa Catarina, com sede na Rua Trajano, nº 16, e uma agência em Chapecó. Mais tarde viria o Banco da Lavoura, embrião do futuro Banco Real.
Esses bancos operavam com depósitos à vista e a prazo, concedendo empréstimos a juros que variavam entre 2% e 9% ao ano — números que soam ingênuos, mas que definiam o pulso financeiro de um Estado ainda rural, onde o crédito era privilégio e o dinheiro, escasso.
A primeira greve nacional da qual participaram os bancários catarinenses marcou um ponto de virada na história da categoria. Diante da agência do Banco do Brasil — então localizada no prédio público ao lado da Câmara de Vereadores, na Praça XV —, os grevistas de Florianópolis transformaram o Sintrafi, que até então era uma entidade recreativa, em organização política.
Não era fácil o esforço sindical em Santa Catarina nos anos 1940. Ir de Florianópolis a Chapecó para uma reunião podia levar até três dias de viagem, quando havia ônibus. Rádios e jornais silenciavam sobre sindicalismo, direitos trabalhistas e greves. Comunicação à distância, só por rádio amador; telefone era luxo de repartição. Mesmo assim, o Sindicato buscava presença em todo o Estado. Criou representações regionais para suprir a distância e, entre atas manuscritas e boletins mimeografados, foi costurando o primeiro tecido de solidariedade entre os trabalhadores do crédito.
Mesmo na dificuldade, o Sintrafi começava a fincar as raízes de uma luta que atravessaria gerações.
“Naquela época, a classe dos bancários não era uma classe organizada. Havia um prédio, uma sala alugada, e lá se reuniam os bancários, jogavam dominó...Não havia uma atividade em defesa dos direitos da classe. Mas isso foi sendo estruturado. Aos poucos, começaram a surgir as reivindicações salariais.”
O depoimento de um dos pioneiros sintetizou o espírito daqueles anos. O Sindicato engatinhava entre o social e o político. O Brasil vivia o fim do Estado Novo, e o sopro de redemocratização trazia consigo a crença de que o trabalhador pudesse, enfim, ocupar a arena pública. Em Santa Catarina, esse movimento chegou também ao Sintrafi — que começava a se descobrir nas brechas da história.
Quinta-feira, 24 de janeiro de 1946. Cinco horas da tarde — e os bancários de Florianópolis se dirigiam ao sobrado da Rua dos Ilhéus, nº 21. Nenhuma brisa amenizava o calor. Havia tensão no ar.

Bancários do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pernambuco estavam em greve desde o início daquela manhã. Exigiam do governo a assinatura de um decreto que instituísse o salário profissional, conforme o acordo firmado com os banqueiros no ano anterior. Outras categorias, como petroleiros e operários da indústria, preparavam paralisações semelhantes em protesto contra a carestia.
O novo presidente do Sintrafi, Theodoro Miroski, declarou aberta a sessão e passou a palavra a Sebastião Vieira — militante experiente, que em 1935 participou da Coligação dos Sindicatos e, dez anos depois, ajudou a fundar o PCB em Florianópolis. Respeitado pela categoria, Sebastião defendia as orientações do Comitê Nacional de Coordenação do Movimento, que havia deflagrado a greve na véspera, em uma assembleia de seis mil trabalhadores no Rio de Janeiro. Os bancários catarinenses queriam detalhes do movimento — que chegavam apenas pelo rádio amador, entre chiados e longos intervalos.
Estafetas batiam à porta da entidade trazendo telegramas do interior: pedidos de informação, anúncios de paralisações, mensagens de apoio. Miroski conduziu a assembleia à votação. O resultado foi unânime: greve. A decisão caiu como faísca em palha seca. No dia seguinte, os bancários de Florianópolis somaram-se à paralisação nacional — e, pela primeira vez, a cidade sentiu o poder de um movimento coletivo vindo dos escritórios e guichês. Do sobrado da Rua dos Ilhéus saíram bilhetes, listas de apoio e cartas endereçadas aos colegas de Joinville, Blumenau, Lages e Itajaí. Do outro lado do país, o novo presidente, Eurico Gaspar Dutra, mal tivera tempo de apreciar o poder recém-conquistado. Eleito com 3,2 milhões de votos, via-se pressionado pela mesma força social que o Estado Novo tentou conter: o renascimento das vozes operárias. As tropas brasileiras haviam voltado da Itália como heróis, mas os trabalhadores queriam suas próprias vitórias — salariais, políticas e morais. A carestia corroía os vencimentos — e também a paciência. Até mesmo os jornais mais conservadores se deixaram contagiar pela insatisfação trabalhista. No domingo, 27 de janeiro, O Estado — ligado ao PSD de Dutra — estampava em letras garrafais:
“Multiplicam-se as greves — Alteiam-se os protestos contra a carestia. Classes inteiras reivindicam direitos em face das aperturas da vida. Para onde vamos? Cruzar os braços e deixar correr tudo nas franquias democráticas, enquanto o merceeiro majora as contas do caderno-da-venda e o lojista remarca os preços da camisa, do calçado, do brim e da casimira?...”
Entre 24 de janeiro e 11 de fevereiro de 1946, quarenta mil bancários cruzaram os braços em todo o território nacional. O salário mínimo profissional — reivindicação que vinha desde 1935 — tornava-se símbolo do direito de existir como classe. Sebastião Vieira escreveu em O Estado um manifesto relatando os insucessos das negociações com a comissão dos banqueiros e concluiu:
“Deu-se o inevitável: a greve estourou em todo o Brasil e a coesa classe bancária (...) aguarda agora seja resolvida a questão das suas reivindicações, não mais com a morosidade (...) mas com a premência assustada das horas angustiosas que passam e que tantos males acarretarão aos meios financeiros do Brasil.”
A greve deixou em pânico os duzentos banqueiros que integravam a comissão patronal. O movimento não era apenas econômico. Representava a unificação de uma categoria que, pela primeira vez, falava em tom de igualdade diante do poder financeiro.
Nos bastidores, a tensão política se misturava à ideológica. Grande parte das lideranças sindicais era ligada ao PCB, que vivia a contradição entre o entusiasmo das massas e o receio de um governo recém-saído da ditadura de Vargas.
A meio caminho da conclusão da greve, a imprensa tornou-se palco das divergências. No dia 6 de fevereiro, O Estado estampou apelos opostos: de um lado, o secretário estadual do PTB, em sintonia com o PSD de Dutra, pregava “moderação e sacrifício nacional”; do outro, o bancário Oldemar Magalhães, futuro presidente do Sintrafi, respondia com ironia e lucidez:
“É natural e mesmo inevitável que haja relutância por parte dos banqueiros que, por índole e temperamento, em nada queiram ceder a nosso favor (...) ”
Entre a retórica do sacrifício e a necessidade dos trabalhadores, havia um país tentando aprender sobre democracia. A greve terminou sob intervenção federal em alguns sindicatos — como o do Rio de Janeiro — e sob vigilância permanente em todos os outros. Mas, para o Sintrafi, a adesão trouxe luz à luta trabalhista. Os bancários catarinenses estiveram presentes, atuantes e solidários na greve nacional. Foi sua certidão de maturidade.
Naquela tarde, o Sintrafi mudou de natureza. A grande greve de 1946 seria o ato inaugural da consciência de classe entre os bancários de Santa Catarina.



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