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CAPÍTULO 5 - Sindicalismo Pelego

  • 29 de abr.
  • 7 min de leitura

Os anos 1970 foram cobertos por um brilho ilusório. O chamado “milagre econômico” exportava otimismo e importava dívida. Em Santa Catarina, o movimento sindical se fragmentava — reflexo direto da política nacional de enfraquecimento das entidades de classe. Dividir para dominar.


O Sintrafi, que por vinte e quatro anos representou toda a categoria no Estado, teve sua força pulverizada. Cada cidade passou a ter seu próprio sindicato e, com o tempo, cada sindicato virou uma voz isolada, fraca diante da máquina ditatorial.


Não demorou para o milagre ruir. A crise do petróleo de 1973 desmontou o discurso de prosperidade, a inflação cresceu como praga e, por trás dos números propagados pelos milicos, revelou-se a farsa. O sindicalismo vivia sob tutela: greves proibidas, eleições controladas, direções nomeadas por interventores do Ministério do Trabalho.


1972 Posse de Ilson Dias o infiltrado
1972 Posse de Ilson Dias o infiltrado

No início da década, emergiu em Florianópolis a figura de Ilson Ulmer Dias — símbolo perfeito do sindicalismo domesticado pela Ditadura. Para seus adversários, ele havia sido “preparado” para derrotar o ex-presidente Valei Lacerda e o núcleo militante ligado ao PCB. E, de fato, se orgulhava de ter passado três meses em Washington, no Curso de Capacitação para Dirigentes Sindicais ministrado pelo American Institute for Free Labor Development (AIFLD) — o braço da CIA destinado a treinar lideranças dóceis, que substituíssem o sindicalismo combativo por uma versão ornamental e controlada.


O AIFLD, criado em 1961, dizia oferecer “assistência técnica” e “educação política” aos sindicatos latinoamericanos. Na prática, era um projeto de engenharia ideológica — o principal braço da Guerra Fria no mundo do trabalho.


Segundo o cientista político René Dreifus, três princípios guiavam o programa do AIFLD: dividir os trabalhadores, criando uma elite sindical disposta a defender seus privilégios contra os desempregados; combater e eliminar qualquer infiltração comunista; e negar a luta de classes em nome de um consenso entre patrões e empregados — o mito da produtividade compartilhada.


Os cursos, realizados em três níveis, treinavam dirigentes de todo o continente. A primeira fase acontecia em centros regionais; a segunda, em São Paulo; e a terceira — a mais prestigiada —, em Washington. Até 1964, mais de doze mil trabalhadores latinoamericanos haviam passado por essa formação.


Entre os alunos brasileiros, constava o nome de Ilson, futuro presidente do Sindicato. Para os que o criticavam, era o retrato perfeito do “bom aluno de Washington” — moldado para conter, e não para mobilizar.


De volta ao Brasil, Ilson assumiu o Sintrafi com o beneplácito do regime. Vaidoso, fez de sua própria imagem o centro de gravidade da entidade. Criou um jornal, O Bancário, que servia como espelho. De 1972 a 1987, foram quarenta e oito edições — uma média inferior a quatro por ano. Publicava quando lhe convinha, quase sempre para se elogiar.


Entre 1982 e 1983, quando concorreu a vereador da capital pelo PDS, o jornal teve, coincidentemente, número recorde de edições. Conquistou apenas 940 votos — diante de mais de cem mil eleitores e de candidatos que ultrapassaram três mil. Mesmo assim, O Bancário insistiu em retratá-lo como um visionário.


A democracia, porém, não era o ponto forte de suas gestões — nem de seu jornal. A edição de fevereiro/março de 1975 anunciava as eleições exaltando a chapa única e as virtudes do presidente. O programa de mandato previa a construção de uma nova sede “para sanar todos os problemas de atendimento do Sindicato durante um período mínimo de cinquenta anos”.


A promessa não se cumpriu. O que se consolidou, na verdade, foi um modelo de administração autoritário. Enquanto o país endurecia sua vigilância, o Sindicato dos Bancários de Florianópolis se transformava em vitrine da cooptação.


No discurso de Ilson, as circunstâncias que o levaram ao Sindicato não eram políticas — eram, em sua visão, consequência natural de seu talento. Virou bancário aos dezesseis anos, na Companhia de Seguros Boa Vista. Sindicalizou-se em 1959. Depois, passou em concurso para o Banco do Estado do Paraná, onde trabalhou de 1962 a 1967. No final daquele ano, foi convidado a fazer um teste no BESC — e admitido em 4 de dezembro.


Rápido e ambicioso, Ilson logo se tornou diretor da Associação do BESC. Em 1971, já figurava no Centro Catarinense de Desportos Bancários (CCDB) — um ambiente socialmente neutro, mas politicamente estratégico. Ali começou a articular a chapa que derrotaria o então presidente Valei Lacerda, ligado ao PCB.


Em fevereiro de 1972, o Sindicato enfrentou uma das mais graves crises internas de sua história durante a Ditadura. A Delegacia Regional do Trabalho determinou a formação de uma junta governativa. A direção, liderada por Valei, resistiu. Mas o delegado Cyro Belli Müller, homem de confiança dos militares, manteve a ordem de dissolução e impôs a eleição da junta em assembleia marcada para o dia 2 de março. Vinte dias depois, em 24 de março, a diretoria do Sindicato enviou uma nota aberta aos bancários, esclarecendo a situação e pedindo apoio.


O documento era assinado por Valei Lacerda (presidente), Galvani Souza Bochi (secretário-geral), Nelci S. de Andrade (2º secretário), Luiz Lopes (1º tesoureiro), Tertuliano X. de Brito (2º tesoureiro), Yoldory C. Garofallis e Adernar Cúrcio (conselho fiscal). A nota — que poderia ser facilmente interpretada como subversão por defender a autonomia sindical — era, por si só, um ato de bravura.


A tentativa, porém, não deu certo. No dia 2 de março de 1972, uma assembleia geral, secretariada por Gerônimo Machado, elegeu a junta provisória do Sindicato. O assessor jurídico da entidade era Roberto João Motta, e o ajudante de secretaria, Nelson Gomes Caldeira. Com 99 votos, Valei foi eleito presidente da junta por mandato de noventa dias, com a missão de coordenar as eleições.


A chapa derrotada recebeu 59 votos e era formada por Odemir Faisca (presidente), Ilson Ulmer Dias (secretário) e Carlos Antônio da Silva (tesoureiro). Apenas um bancário anulou o voto. Era a primeira vez que o nome de Ilson Dias aparecia numa disputa sindical. Menos de três meses depois, a junta provisória convocaria nova eleição — e, desta vez, Ilson voltaria para vencer. Quando as urnas foram abertas, em 12 de maio de 1972, descobriu-se que a Chapa Verde, liderada por ele, havia derrotado a Chapa Azul por 307 a 282 votos.


A diferença foi mínima — e irônica: a soma dos treze votos brancos e quinze nulos, previstos para a Chapa Azul, poderia ter mudado o curso da história do Sindicato. Mas começou ali o império de Ilson Dias — que se estenderia por quinze anos, marcado pela conivência com os militares.


A revolta de Florianópolis contra a ditadura - A Verdade
A revolta de Florianópolis contra a ditadura - A Verdade

Para ele, aquela vitória simbolizava competência e prestígio. Para seus opositores, era a prova de um projeto de poder. A Ditadura o preparou. A tal “descentralização” seguia à risca a cartilha golpista. Em 1972, o Sintrafi ainda representava bancários de 144 municípios, e havia apenas outras cinco entidades no Estado. Ilson, orgulhoso, gostava de se gabar:


“Olhando para o desenvolvimento do sindicalismo catarinense, o nosso sindicato levou ao conhecimento do Ministério do Trabalho a necessidade de criar mais sindicatos para representar as regiões distantes da capital. A iniciativa foi da minha gestão.”


Em 4 de julho de 1972, declarou inaugurada a nova fase do Sindicato — com a compra de equipamentos odontológicos, a modernização da barbearia e a reformulação dos estatutos conforme as exigências do Ministério do Trabalho.


O Sindicato havia se transformado numa agência informal da Previdência Social em um sistema que cobrava de todos, mas servia a poucos. Como definiu Armando Boito Jr., eram “agências previdenciárias impositivas e universalistas na tributação, mas particularistas na distribuição dos benefícios”. Quando o MOB chegou ao poder, apurou que menos de 10% da categoria utilizava o aparato médico e odontológico mantido por décadas.


Apoiadas nas facilidades de crédito do governo militar, as gestões de Ilson multiplicaram investimentos. Em 29 de dezembro de 1978, inaugurou a subsede do Estreito, na Rua Souza Dutra, 36, e comprou uma Kombi com 70% de recursos do Ministério do Trabalho. Um ano depois, um convênio entre o Sindicato, o Ministério e a Caixa Econômica Federal permitiu a compra de duas salas no Edifício Tiradentes, a ampliação dos serviços assistenciais, a criação de bolsas de estudo e a aquisição de um terreno de 97 mil m² em Vargem Pequena, destinado à futura sede campestre da entidade. Mais de Cr$ 40 milhões foram drenados via Caixa e Ministério do Trabalho para o Sindicato — um fluxo generoso de recursos que, em troca, assegurava silêncio político e gratidão institucional. O Sintrafi dos tornou-se o retrato fiel do regime que o sustentava: disciplinado e apático.


O jornal de março e abril de 1978 era, como quase todos da era Ilson, uma campanha aberta. A manchete anunciava nova eleição sindical, conforme edital publicado em A Gazeta de 23 de dezembro — dois dias antes do Natal.


Votar na chapa única não era opção: era dever.


“O não exercício do direito de votar acarretará multa aos faltosos, conforme determinação do Ministério do Trabalho”.


No centro da página, emoldurado num quadro de destaque, Ilson ensinava:


“O bom líder mostra com orgulho as suas conquistas e obras, enquanto o mau divulga inverdades e tumultua a classe.”


Na edição de setembro de 1978, O Bancário proclamava solenemente:


“Contando com o apoio dos governos estadual e federal, onde possui muito prestígio e relacionamento, o presidente Ilson Ulmer Dias pretende também conseguir recursos para a construção de uma praça de esportes para os bancários.”


Ao lado do texto, a fotografia dizia mais do que o editorial: Ilson entre João Baptista Figueiredo e o governador nomeado Jorge Bornhausen.


No ano seguinte, em novembro de 1979, Figueiredo, Bornhausen e o ministro César Cals foram recebidos em Florianópolis com vaias. O general, que preferia


“o cheiro dos cavalos ao do povo”, tentando dissimular a franca rejeição, parou para um café no Senadinho, na Felipe Schmidt — mas o que tomou foi um tapa.


Figueiredo tomando café no Senadinho, ao lado do ex-governador Jorge Konder Bornhausen – Foto James Tavares, Divulgação ND
Figueiredo tomando café no Senadinho, ao lado do ex-governador Jorge Konder Bornhausen – Foto James Tavares, Divulgação ND

A cafeteria foi cercada por estudantes enfurecidos e donas de casa batendo panelas esvaziadas pela inflação. Era Mosquito pra cá, Adolfo Dias pra lá, Lígia Giovanella, Marize Lippel, Rosângela Koerich, Newton Vasconcelos e Geraldo Barbosa: os sete estudantes presos no episódio — batizado Novembrada — que entrou para a história como o primeiro grande ato de contestação ao regime militar em Santa Catarina. 


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