top of page

CAPÍTULO 4 - Consciência Operária

  • 29 de abr.
  • 18 min de leitura

O general João Figueiredo ordenou a repressão. Oito mil soldados, quarenta viaturas e três helicópteros do Exército cercaram São Bernardo do Campo, epicentro do ABC Paulista, para impedir a manifestação. Apesar da tensão, nada conteve o avanço de cento e quarenta mil trabalhadores que marcharam até a Matriz, rasgando o bloqueio militar. O 1º de Maio de 1980 tornou-se a maior manifestação operária contra a Ditadura — e incendiou o país.


Vinte dias depois, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) — o esquadrão da morte institucionalizado —, sob pressão pública, soltou o líder acusado de insuflar o surto coletivo de rebeldia dos trabalhadores. No início da noite, o motorista do Exército, assustado com a multidão que ainda ocupava as ruas, o deixou no meio do caminho de casa. O operário seguiu a pé, carregando uma pequena mala. Quando a rádio anunciou a notícia de sua liberdade, a peãozada invadiu sua casa, o tomou nos braços, rasgou o céu com rojões e, por toda São Bernardo, se ouviu um grito impassível de cale-se:


“Luuuuula! Luuuuuula! Luuuuuula!”


A chama havia se alastrado. A década de 1980 seria dos trabalhadores.


Em Florianópolis, o Sindicato dos Bancários era presidido por Ilson Ulmer Dias — o escolhido da Ditadura — em seu anseio de permanência perpétua. Em março de 1981, apenas uma chapa ousou enfrentá-lo: a Renovação. Reuniu duas dezenas de bancários dispostos a desafiá-lo, mas o projeto naufragou antes de chegar às urnas. O delegado regional do Trabalho, Jurcy Gouvêa, impediu a inscrição da chapa, garantindo a vitória automática de Ilson.


1987 Greve dos bancários
1987 Greve dos bancários

O jornal O Bancário, porta-voz da direção servil aos milicos, noticiou o impedimento com burocracia e publicou um anúncio de meia página ensinando a categoria a votar na chapa única. Era a pedagogia do autoritarismo às claras.


Antes do fim do ano, a oposição voltou a reagir. Em 22 de dezembro — três dias antes do Natal —, Ilson convocou uma assembleia para dobrar o valor da mensalidade sindical, de Cr$ 250,00 para Cr$ 500,00. A oposição votou contra — e foi novamente derrotada. A categoria não foi consultada.


Na eleição seguinte, outra ferida: a cassação da gratificação semestral dos empregados do BESC. Do quadro de funcionários aviltados nasceu um novo núcleo de resistência — a Oposição Sindical Bancária (OSB).


Dois bancários se destacavam na linha de frente: José Ricardo Toscan de Freitas e Carlos da Costa Soares. Vinham do movimento estudantil e traziam a fome pela redemocratização. Clandestinamente, distribuíram convites marcando encontros no salão de festas dos edifícios Franklin Cascaes e Eduardo Dias, na Rua Vidal Ramos, em Florianópolis. Aos poucos, vieram colegas do BESC, Banco do Brasil, Nacional, Banestado, Banerj, Mercantil, Noroeste, Bamerindus. Em círculos concêntricos, a OSB cresceu.


Do Banco do Brasil veio um apoio improvável. O vice-presidente do Sindicato, Claodeomar Mafra, se dispôs a pagar os boletins da oposição. Não era seu primeiro gesto de estranha solidariedade. Semanas antes, avisara Freitas de que capangas haviam sido contratados para espancá-lo. A ameaça se confirmou dias depois, quando um jipe tentou atropelá-lo na saída do trabalho. Freitas fugiu e conseguiu chegar em casa ileso.


Os boletins da OSB, datilografados numa velha Olivetti, tinham a fúria da juventude. O símbolo era um boneco de calça com friso e sapato furado — a ironia do trabalhador contra o patrão. A primeira edição, crítica à passividade da direção do Sindicato nas negociações da gratificação, foi entregue a Mafra para fotocópias. Mas o material voltou com um adendo: o símbolo da loja maçônica do vice-presidente deveria ser incorporado ao projeto gráfico. O pessoal da OSB aceitou, mas depois riscou o marketing maçom com caneta preta jornal por jornal. Acabou ali o suspeito patrocínio de Mafra. As edições seguintes circularam mesmo assim — mimeografadas.


A OSB conquistou o apoio de dirigentes de outros sindicatos que já haviam derrotado direções pelegas — como se chamavam os que serviam ao patrão com a maciez da subserviência. Num sábado, reuniu-se com três diretores do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e com Gilmar Carneiro dos Santos, liderança do Sindicato dos Bancários de São Paulo — que, anos depois, se tornaria secretário-geral da CUT.


A aproximação abriu horizontes. Pela primeira vez, os bancários de Florianópolis trabalhavam com informações atualizadas sobre a realidade nacional da categoria. Sabiam o que se passava nos corredores de São Paulo, nas greves de Porto Alegre, nas assembleias do Rio.


Decidiram montar uma chapa capaz de disputar as eleições do início do ano seguinte. Dos vinte e dois cargos, dez seriam ocupados por bancários da rede privada — sinal de que a base começava a se abrir. Freitas e Carlos Soares foram indicados para os postos de presidente e tesoureiro.


Chapa montada, a OSB foi atrás do edital de convocação da eleição. Sabiam que o costume era a dissimulação — e foi exatamente o que aconteceu. No dia 22 de janeiro de 1984, diretores do Sindicato apareceram nas agências fixando cópias do edital — dois dias depois do prazo de inscrição.


A OSB tentou recorrer à legalidade. Procurou a Delegacia Regional do Trabalho (DRT), onde Paulo Soar, responsável pela área sindical, informou que era preciso comprovar que o edital não havia sido fixado conforme o estatuto e que existiam interessados lesados, com força suficiente para formar uma chapa. A OSB redigiu um abaixo-assinado denunciando a manobra e anexou a nominata completa. Na mesma semana, entregaram os documentos. Era o primeiro passo formal da oposição.


No meio do embuste, José Ricardo Freitas recebeu um telefonema do tesoureiro do Sindicato, Anísio Ávila Simas, que marcou uma conversa para um sábado. No apartamento de Simas, no Kobrasol, diante de uma mesa redonda de fórmica azul, Freitas ouviu o relato de um esquema de desvio de recursos conduzido pela diretoria. A pedido de Freitas, Simas escreveu, de próprio punho, sete páginas relatando tanto a corrupção quanto a fraude eleitoral.


Dois dias depois, na segunda-feira de manhã, sem tirar cópias, a OSB levou o manuscrito à DRT. O documento desapareceu. Foi o início da demolição da oposição. Na mesma semana, o apelo da OSB foi arquivado. Simas assinou outro documento, afirmando que Freitas e Carlos da Costa Soares o haviam coagido. Todos os membros da oposição vindos de bancos privados foram demitidos.


Carlos foi transferido para Morro da Fumaça. Freitas deveria ir para Joinville, mas, como se negou, foi demitido. Entrou com ação de reintegração contra o BESC, mas desistiu em junho, quando foi convocado para trabalhar na Caixa Econômica Federal, para a qual havia passado em concurso.


Assim acabou a Oposição Sindical Bancária.


O autoritarismo venceu a batalha, mas ideias são à prova de balas — recolhem-se à sombra, onde amadurecem. A iniciativa da OSB não foi esquecida. Restou a consciência de que o Sindicato não pertencia a seus dirigentes, e sim à categoria. Subterrânea, como brasa sob cinza, crescia a vontade de mudança.


No início de setembro de 1985, corria de boca em boca o burburinho da greve nacional. Espontaneamente, mais de quatrocentos bancários se reuniram diante da Prefeitura de Florianópolis para a maior assembleia em vinte anos — conduzida por uma nova geração de lideranças.


A assembleia que deflagrou o movimento elegeu um comando próprio, à revelia da direção sindical, e assumiu o controle da greve. O preço para a gestão de Renato Ghellere foi alto. A partir dali, e até maio de 1987, o Sindicato dos Bancários viveria uma espécie de dupla administração, dividida entre o poder formal e o comando insurgente — o núcleo que daria origem ao Movimento de Oposição Bancária (MOB).


Um ano depois, em 11 de setembro de 1986, o MOB já comandava sua segunda greve — plenamente implicado em seu papel de liderança. A reivindicação de reajuste salarial de 26,5% esbarrava no discurso moralizante do governo e na vigilância cega dos fiscais do Sarney, a patrulha popular da inflação.


Nos bastidores, os bancos se adequavam à “nova ordem econômica” ceifando vagas de trabalho. Setenta mil bancários dispensados, quinhentas agências fechadas; a engrenagem financeira sacrificava corpos, não lucros.


A resposta veio. Mais de quinhentos mil bancários cruzaram os braços em todo o país. A greve se espalhou em rastilhos de fogo. O movimento foi encerrado sem acordo com a Fenaban, mas a força coletiva estava posta. Perseguições, advertências e demissões foram a resposta governista. O Sarney que prometera estabilidade escolheu a repressão. Ainda assim, o castigo durou pouco. Rasgava o espírito do povo a vida insurgente às tiranias.


No dia 30 de outubro, o centro de Florianópolis assistiu à célebre “greve das seis horas”. Os empregados da Caixa, ainda chamados de economiários por falta de reconhecidos, tinham menos direitos, salários menores e jornadas mais longas, embora exercessem as mesmas funções dos bancários. Cerca de dezesseis mil trabalhadores estavam nessa condição em todo o país.


As manifestações que tomaram as ruas, com a bandeira das seis horas e da igualdade de direitos, eram fruto de uma luta iniciada em 1982, quando os escriturários se rebelaram contra a desigualdade imposta pela Caixa.


Numa noite abafada do início de dezembro, sete jovens bancários se reuniram no Bar Peculiar e Arte, em Florianópolis, para avaliar as greves de setembro e outubro e decidir o próximo passo. Sentaram-se à mesa e, entre rodadas de cerveja e debates acalorados, Samuel Pantoja Lima, Edson Bender, Ivan Jairo Junckes, José Rui de Souza, Renato Nodari e Alberto Groismann, todos do Banco do Brasil, e Vanio dos Santos, da Caixa, criaram o primeiro boletim do MOB — lançado com o apoio do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre.


Ali, naquele bar, havia outra visão de sindicato.


O MOB não era o fim, mas o meio para algo maior — o embrião do que mais tarde seria chamado de “sindicato-cidadão”: uma estrutura autônoma, enraizada na base, capaz de representar a categoria sem pedir licença à direção pelega.


A chama que os unia era intelectual. Quase todos universitários ou recém-formados em cursos de Humanas da UFSC, os jovens do MOB transformaram a reflexão em prática política. Produziam textos, debatiam teorias, estudavam Sociologia do Trabalho — e, sobretudo, acreditavam que o pensamento deveria mover a ação.


Não demorou para que o grupo ganhasse projeção nacional. Eram conhecidos com admiração como a “República Independente de Florianópolis” — um dos movimentos mais articulados e criativos do país.


Três meses depois daquela noite no bar, em março de 1986, o MOB foi lançado oficialmente. O ato aconteceu no plenário da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, durante um debate que contou com a presença de Luiz Azevedo, diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo.


O MOB ganhava corpo, endereço e voz própria. Instalou-se em uma sala no edifício Franklin Cascaes, na Rua Vidal Ramos. Tinha telefone, secretária e uma arrecadação mensal feita por meio de carnês distribuídos entre os bancários — símbolo de uma independência rara no sindicalismo da época.


Exatamente um ano depois, em março de 1987, o movimento deu o passo decisivo: a chapa do MOB foi escolhida em convenção realizada no auditório da Federação dos Comerciários, com a participação de mais de duzentos bancários. O nome de Samuel Pantoja Lima foi indicado para a presidência. Entre os presentes, destacava-se a presença crescente de bancários da rede privada — muitos deles organizados clandestinamente, sob o risco real de demissão.

1987 - Dia Nacional de Lutas
1987 - Dia Nacional de Lutas

A habilidade política dos dirigentes do MOB seria testada antes mesmo da eleição. Em fevereiro de 1987, Sarney decretou intervenção no BESC, em acordo com o governador eleito Pedro Ivo Campos (PMDB). Oficialmente, a medida era apresentada como tentativa de “salvar” o banco; na prática, escondia uma articulação privatista. O BESC estava minado por irregularidades herdadas das gestões de Jorge Bornhausen e Esperidião Amin, e o mercado que ocupava era cobiçado pelos bancos privados.


A defesa do BESC, desde que mantido seu papel social de fomento ao desenvolvimento catarinense, tornou-se prioridade imediata do MOB e de toda a categoria. Desde a fundação do banco, em 1962, os trabalhadores do BESC formavam o maior contingente da base sindical — e sua mobilização era decisiva para o êxito das lutas.


O MOB buscou dialogar com uma base heterogênea, composta em parte por empregados que haviam ingressado no banco por indicação política de vereadores e deputados, especialmente durante a gestão Amin. Com o tempo — e com a luta — essa lealdade pessoal foi cedendo lugar à consciência de classe.


Foi nesse clima que, em março de 1987, às vésperas da eleição sindical, o MOB comandou a greve dos nove dias com a palavra de ordem:


“Cem por cento, quando?” — “Já!”


Quando chegaram as eleições de 22, 23 e 24 de abril, o MOB venceu com 2.258 votos, contra 645 da chapa da situação, além de 30 brancos e 52 nulos. A vitória foi celebrada em sucessivas madrugadas nos redutos boêmios da cidade — como o Peculiar e o Canal.


A posse ocorreu no dia 28 de maio de 1987, no Clube 15 de Outubro, diante de uma plateia que simbolizava a nova era. Estavam presentes os presidentes dos sindicatos dos bancários de São Paulo, Blumenau, Porto Alegre, Sergipe, Maceió e Rio de Janeiro, além de representantes da Federação dos Bancários do Paraná. Dois dias depois, houve a festa da vitória, em Jurerê.


Da condição de oposição paralela à de direção efetiva, o Movimento logo descobriu o peso da herança pelega. O Sindicato, além de décadas de atrelamento ao Estado, era financeiramente um desastre. Funcionava como uma sucursal da previdência, com o orçamento consumido por barbearia, farmácia e assistência médico-odontológica — restos de um modelo paternalista que transformava contribuição em assistencialismo. E as contas, como logo se veria, não batiam.


A primeira providência do MOB foi contratar uma auditoria para investigar as finanças da entidade. As assembleias tornaram-se transparentes. Velhas práticas foram questionadas, e denúncias contra gestões anteriores vieram à tona. Nada, porém, pôde ser comprovado — nem mesmo as antigas acusações de Anísio Simas. Ainda assim, não faltavam indícios de uma distorção sistêmica.

1993 Gestão Movimento, Cidadania & Luta
1993 Gestão Movimento, Cidadania & Luta

Uma edição resgatada do jornal O Bancário, por exemplo, estampava com orgulho que o Sindicato havia realizado 102.123 atendimentos em 1982 — entre consultas médicas e odontológicas. Porém, a base sindical era de 5.600 bancários, dos quais 3.209 sindicalizados. A conta, como ironizou um dirigente do MOB, “só fechava se cada bancário, inclusive os de São Miguel d’Oeste, tivesse ido ao dentista dezoito vezes”. Outro cálculo expunha o absurdo: o Sindicato precisaria ter feito 279 atendimentos por dia, nos 365 dias do ano, incluindo fins de semana e feriados, na pequena sala destinada à função.


Pela crítica ao passado, a categoria aprovou uma mudança estrutural, a contribuição sindical deixava de ter valor fixo e passava a ser percentual sobre o salário, o que garantiria previsibilidade e planejamento. Essas decisões marcavam o início da gestão democrática. O assistencialismo deu lugar ao sindicalismo de base e formação. O Sintrafi se reorganizou em seis departamentos-chave: Formação, Imprensa, Cultura, Finanças, Jurídico e Socioeconômico.


Doze dias após a posse, em 9 de junho de 1987, lançou-se a primeira edição da Folha Sindical: cinco mil exemplares escritos numa linguagem popular, combativa e de saborosa acidez. Nas páginas do jornal, a violência policial era denunciada com a mesma força com que a macroeconomia era traduzida para a “linguagem de esquina”. Cada texto era um ato de resistência. Ney Pacheco e Luciano Faria transformavam a máquina de escrever em arma política.


A Folha Sindical foi elaborada em parceria com a UFSC, sob orientação do professor Henrique Finco. Da universidade às ruas, o jornal era, ao mesmo tempo, instrumento pedagógico e panfleto de combate. A manchete da primeira edição anunciava o novo tempo:


“Vitória!”


“Durante 18 anos, o Sindicato dos Bancários de Florianópolis esteve entregue às baratas e aos ratos. Nenhum trabalho sério de mobilização, nenhum esforço para organizar a categoria, nenhuma atuação mais consistente durante as greves — nada, absolutamente nada! Em todos esses anos, a pelegada não fez outra coisa senão desrespeitar os mais legítimos direitos da classe bancária, compactuando sempre com os interesses do governo e dos banqueiros.”


A Folha narrava o cotidiano da categoria — a conquista do auxílio-alimentação, os embates com os banqueiros, o orgulho de reconstruir uma entidade devastada. Manuseava com destreza o fio agudo da palavra.


Em menos de um ano, o Sindicato dos Bancários de Florianópolis — agora revigorado — voltava a ser referência nacional em autonomia, criatividade e luta.


A ação política tornava-se descentralizada e participativa. As assembleias eram divulgadas e abertas; a diretoria percorria as agências, estimulando a presença direta dos bancários por meio dos delegados sindicais.


O resultado apareceu logo. Em 19 de novembro de 1987, apenas seis meses após a posse, o Sindicato contabilizava 774 novas filiações — uma média de 128 por mês, ou seis por dia. A base demonstrava confiança renovada.


A luta pela preservação dos salários extrapolava as fronteiras dos guichês. Desde 1987, a categoria havia decidido fortalecer as greves gerais convocadas pelas centrais contra os sucessivos pacotes econômicos que corroíam o poder de compra dos brasileiros. A primeira delas, em 20 de agosto de 1987, foi convocada pela CUT contra as perdas salariais provocadas pelo Plano Cruzado.


Em Florianópolis, o episódio marcou a história local. No Largo da Catedral Metropolitana, manifestantes foram brutalmente agredidos pela Polícia Militar, sob ordens do coronel Guido Zimmermann. A Folha Sindical reagiu. Em editorial, chamou Zimmermann de “psicopata”. O coronel processou o jornal. A ousadia da palavra custava caro — mas o silêncio, se sabia, custava mais.


O país atravessava a Constituinte, a hiperinflação e o desgaste do governo Sarney. Em meio à instabilidade, a Folha, já em seu segundo ano, amadurecia. De panfleto de combate, tornou-se jornal de formação — capaz de explicar economia, denunciar repressões e ensinar organização sindical. O tom era de aprendizado e consolidação do “sindicato-escola”.


O objetivo era que o bancário catarinense deixasse de ser espectador e passasse a ser sujeito político. O jornal passou a contar com as charges de Frank Maia, que davam à resistência um traço de ironia inteligente e humor popular.


Resquício dos Anos de Chumbo, em 10 de fevereiro de 1988, a Polícia Federal invadiu a sede do Sindicato, apreendendo jornais e cartazes que denunciavam os deputados federais catarinenses que haviam votado contra os trabalhadores na Assembleia Constituinte. Depois de jogar a estabilidade no lixo, o Centrão ainda derrubou a proposta de jornada de 40 horas semanais, aprovando 44. A Folha não se limitou à denúncia genérica: listou, um por um, os parlamentares catarinenses que haviam votado contra os trabalhadores: Alexandre Puzynski (PMDB), Antônio Carlos Konder Reis (PDS), Artenir Werner (PDS), Cláudio Ávila da Silva (PFL), Dirceu Carneiro (PMDB), Eduardo Moreira (PMDB), Geovah Amarante (PMDB), Henrique Córdova (PDS), Ivo Vanderlinde (PMDB), Jorge Bornhausen (PFL), Nélson Wedekin (PMDB), Orlando Pacheco (PFL), Paulo Macarini (PMDB), Renato Vianna (PMDB), Ruberval Pilotto (PDS) e Victor Fontana (PFL).


A repressão não calou o jornal — apenas comprovou a força cortante da palavra.


Poucos meses depois, em 28 de dezembro, o governador Pedro Ivo anunciou um “presente de Ano-Novo” aos catarinenses: o projeto de privatização do BESC. O modelo proposto previa uma gestão tripartite — um terço das ações para o governo estadual, um terço para os funcionários, por meio do fundo de pensão Fusesc, e o terço restante destinado à iniciativa privada.


O Sintrafi foi a primeira voz contrária e desencadeou um intenso processo de articulação com diversas forças sociais na defesa do banco público catarinense.


A mobilização foi ampla, mais de cinquenta entidades participaram da criação do Comitê em Defesa do Sistema Financeiro Estadual, fundado em 6 de janeiro. Deputados federais, prefeitos, vereadores, empresários ligados à Fampesc (Federação das Micro e Pequenas Empresas) e representantes de diferentes segmentos da sociedade. O movimento se espalhou com rapidez. Em poucas semanas, comitês regionais foram criados em praticamente todas as regiões de Santa Catarina. Até os deputados estaduais, recém-empossados na Constituinte Estadual, em 16 de fevereiro, se engajaram.


O laço coletivo apertava o cerco. A pressão social fez o governador recuar. Essa ampla capacidade de articulação galvanizou a nova diretoria, que passou a ser vista com respeito e admiração — pela categoria e pelo meio político.


Até o final da década de 1980, as greves se sucediam com regularidade, como estratégia de sobrevivência diante da inflação galopante. Quatro grandes paralisações mobilizaram os bancários nacionalmente: 14 a 19 de setembro de 1988, 20 a 26 de abril de 1989, junho e setembro de 1990.


Além das greves nacionais, surgiram também paralisações regionais. A primeira greve isolada dos trabalhadores do BESC aconteceu em 28 de abril de 1988. O banco público, antes reduto de apatia e clientelismo político, se levantava sob o impulso de uma nova perspectiva.


As sucessivas paralisações, decididas democraticamente, desvelavam a transformação do Sindicato. Greves foram instrumentalizadas contra às perdas salariais e à tentativa permanente dos banqueiros de achatar o valor do trabalho.


Nem sempre os resultados eram vitoriosos. A inflação corroía as conquistas antes mesmo de chegar aos contracheques. O desafio para o Sintrafi era consolidar um caráter popular, de classe, conforme defendia a CUT.


A decisão histórica de filiação ocorreu em 30 de novembro de 1988, fruto de um amplo processo de debates. Antes da votação, o Sindicato promoveu um plebiscito e divulgou, de forma transparente, informações sobre todas as centrais existentes no país. A assembleia especialmente convocada para a decisão foi tranquila e simbólica. Apenas um bancário se absteve. A aprovação da filiação à CUT representava uma escolha ideológica e um voto de confiança na prática política da nova diretoria e em seu compromisso com a autonomia sindical.


Na mesma assembleia, o Sindicato decidiu desfiliar-se da Federação dos Empregados em Estabelecimentos Bancários (FEEB), vista como braço do sindicalismo burocrático e conservador. Essa ruptura inaugurou um novo ciclo. A partir dali, o Sintrafi passaria a integrar a construção do Departamento Estadual dos Bancários da CUT, fundado em 1990.


A CUT nacional havia sido fundada sete anos antes, em 28 de agosto de 1983, como resultado direto das greves do ABC e do ideário do Novo Sindicalismo — combativo, reivindicativo, político e aliado aos movimentos sociais.


Em Santa Catarina, a CUT-SC surgiu em 23 de setembro de 1984, sob a liderança de Jorge Lorenzetti, seu primeiro presidente. Nascido em Urubici, formado em Enfermagem pela UFSC em 1974, Lorenzetti trazia na bagagem a militância estudantil e a experiência do 1º CONCLAT (1981) e da fundação da CUT nacional, em São Bernardo, dois anos depois.


Na capital catarinense, foi um dos idealizadores da Escola Sul da CUT, em Canasvieiras — espaço voltado à formação de dirigentes, à reflexão crítica e à produção de materiais educativos.


A aliança entre a CUT-SC e o MOB foi um ato de coerência. As entidades compartilhavam os mesmos princípios, autonomia, formação política e a convicção de que transformar o país exigia transformar os sindicatos.


Enquanto o Brasil escrevia sua nova Constituição, o Sintrafi se reinventava. A antiga subsede do Estreito deu lugar à Casa Cultural e de Lazer do Bancário, inaugurada como um ponto de encontro e convivência. Todas as sextas-feiras, o espaço ganhava som ao vivo; nas tardes de sábado, aulas de violão. A ideia era sair das salas de reunião e ocupar também o território da cultura.


No início do ano, a entidade ampliou seu alcance com sua famosa Kombi equipada com sistema de som, transformando o veículo em ferramenta de mobilização. Pelas ruas do centro, pelas agências e bairros da Ilha, a Kombi anunciava assembleias, campanhas e greves.


Em outubro, o Sintrafi instituiu sua subseção do Dieese, com assessoria permanente do economista Antônio Gomes de Farias Neto. A presença do Dieese forneceu análises econômicas e subsídios técnicos que fortaleceram a argumentação nas negociações por desenvolvimento público.


Já o departamento jurídico contava com um advogado à disposição todas as manhãs, que realizou 2.500 atendimentos ao longo do ano. Entre as ações emblemáticas estavam as movidas contra o congelamento das URPs (abril a maio), processos contra bancos e assessorias gratuitas para sindicatos menores.


O Sintrafi se firmou como referência num país em escala de tensões. Na noite de 9 de novembro de 1988, tropas do Exército invadiram a Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (RJ). Três operários — Walmir Freitas (27 anos), Carlos Augusto Barroso (19 anos) e William Fernandes (22 anos) — foram assassinados brutalmente pelo Estado, com tiros pelas costas e espancamentos. O ministro do Exército chamou a ação de “legítima”. O Sintrafi chamou de chacina.


Os assassinatos em Volta Redonda expuseram a contradição do tempo. O país que escrevia sua “Constituição Cidadã” trazia consigo a perversidade da Ditadura.


Em Santa Catarina, 1988 foi também o ano da pluralidade das lutas. Petroleiros, mineiros de Criciúma, previdenciários, servidores públicos municipais e trabalhadores da Comcap levavam às ruas milhares de pessoas.


O editorial de fim de ano da Folha Sindical refletiu o sentimento de uma geração que, ao mesmo tempo em que comemorava conquistas históricas, via as velhas estruturas se perpetuar sob nova roupagem. Promulgada em 15 de outubro, a Constituição de 1988 nascera “entre lobbies, pressões e ameaças” — e carregava a marca da redemocratização tutelada:


“A maioria conservadora, eleita sob o engodo do Plano Cruzado, garantiu cinco anos ao presidente-latifundiário Sarney, manteve o direito de intervenção das Forças Armadas, deixou a Reforma Agrária para trás e jogou no lixo a estabilidade do emprego.”


Entre os avanços — o direito de greve, a jornada de 44 horas e a licença-maternidade de 120 dias —, o trabalhador percebia que a democracia não seria nem plena nem acessível aos que viviam do trabalho.


Como não poderia ser diferente, 1989 veio com contradições. O Brasil respirava supostas liberdades, mas continuava desigual. A Folha atribuía à “redemocratização inconclusa”. O regime político havia mudado, mas a estrutura social permanecia engessada num passado rançoso.


Após vinte e cinco anos, o país teria a primeira eleição direta para presidente. Nas páginas do jornal, o Sindicato lembrava que a neutralidade é escolha:


“O Sindicato é suprapartidário — mas o trabalhador não pode ser neutro diante da história.”


Na reta final das campanhas, o jornal promoveu prévias eleitorais entre os bancários de Florianópolis: 82,2% votaram em Lula, 10,4% em Collor, e o restante anulou. As pautas defendidas incluíam o não pagamento da dívida externa, a reforma agrária, a estatização do sistema financeiro e o fim da fome.


Em 14 e 15 de março, a greve geral convocada pela CUT parou 35 milhões de trabalhadores — “a maior paralisação desde o fim do regime militar”. Em Florianópolis, bancários, portuários, eletricitários e servidores marcharam lado a lado pelas ruas do centro histórico.


“A greve geral é a arma mais poderosa dos trabalhadores”.


Em maio e junho, o Sintrafi reafirmou sua força organizando o II Encontro Estadual dos Bancários do BESC e dos bancos privados, que pela primeira vez reuniu trabalhadores de ambas esferas em torno de uma pauta unificada.


Daquela reunião nasceram três resoluções fundamentais. A criação do Comando Estadual de Mobilização, a revisão do Estatuto do Sindicato, rompendo com o modelo corporativo de 1937, e a defesa dos bancos públicos como instrumentos de soberania econômica. O assessor jurídico Prudente Mello resumiu a conquista:


“A reforma do estatuto rompe mais um pilar do sindicalismo corporativo e devolve à categoria o direito de decidir seus rumos.”


No mesmo ano, o Sindicato, em um novo modelo participativo, aprovou a divisão territorial em oito regiões administrativas, descentralizando a atuação.


O fim da década não trouxe sossego, mas lucidez. As estruturas eram pesadas, os juros engoliam o pão, mas algo se movia — e o Sintrafi seguia lembrando que o progresso só vale quando beneficia quem trabalha.


FOLHA SINDICAL ANOS 1980


Greve 1985
Greve 1985

1987 — A voz que voltou das ruas Após dezoito anos de intervenção e silêncio, o MOB toma o Sindicato e lança a Folha Sindical, símbolo da redemocratização e da reconstrução. O jornal nasce como arma política e de formação, denunciando o arrocho do Plano Bresser, a repressão policial e a ganância dos banqueiros. Greves no BESC e no Bradesco, conquista do auxílio-alimentação e reorganização interna marcam o renascimento do Sintrafi.


“Tiramos o sindicato da vala do peleguismo.”


1988 — A maturidade e a consciência de classe Em meio à Constituinte e à hiperinflação, o Sindicato se consolida como espaço de formação e debate. A Folha explica economia, ensina organização de base e defende o sindicalismo autônomo. O Sintrafi filia-se à CUT, rompe com a Federação e inaugura a Casa Cultural dos Bancários — símbolo da nova fase de unidade e cidadania.


“Sindicato forte precisa de uma imprensa igualmente forte.”


1989 — O ano da redemocratização inconclusa Primeira eleição direta para presidente em vinte e cinco anos. A Folha chama ao voto consciente, denuncia o arrocho de Sarney e Maílson e defende os bancos públicos. A Greve Geral de março paralisa o país; nasce o Departamento de Saúde do Trabalhador; o jornal se torna uma escola de cidadania. Florianópolis vive a repressão aos sem-teto e sem-terra — e o Sintrafi demonstra solidariedade e coragem.


“O sindicato é suprapartidário, mas o trabalhador não pode ser neutro diante da história.” 


Comentários


CONTATO

Email enviado com sucesso.
bottom of page