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CAPÍTULO 3 - Cidadania Sindical

  • 29 de abr.
  • 11 min de leitura

Atualizado: 1 de mai.

O início dos anos 1990 marcou uma virada na história do Sintrafi. Depois de décadas lutando por sobrevivência, a entidade se preparava para algo mais ambicioso: construir uma máquina de ação capaz de sustentar greves, formar quadros e influenciar a vida pública da cidade.


Fernando Collor de Mello assumia a presidência prometendo caçar marajás, derrotar a inflação e devolver o otimismo nacional. Não tardou para o país amanhecer sem dinheiro, com contas bloqueadas e salários congelados.


As páginas da Folha Sindical registraram, mês a mês, o colapso das promessas. O Plano Collor, anunciado como salvação, revelou-se confisco e caos. Os cem primeiros dias do governo são descritos pelo jornal como uma sucessão de desastres, demissões em massa, inflação renascendo das cinzas e um Executivo que governava por medidas provisórias.


A MP nº 193, de junho, seria o marco da nova ditadura econômica. Congelava salários, anulava acordos coletivos e eliminava a reposição integral da inflação.


“A MP 193 legaliza as perdas salariais e retrocede dez anos na história dos direitos trabalhistas”, denunciava o texto.


O Sindicato qualificou o ato como uma violação direta da Constituição de 1988 — recém-nascida, ainda frágil — por ferir a irredutibilidade salarial e a autonomia sindical. Os bancários viam seus rendimentos corroídos e suas esperanças suspensas entre boletins de inflação e decretos ministeriais.


No BESC, a indignação transbordou. Em julho, os empregados cruzaram os braços numa das greves mais longas da história do banco: catorze dias de paralisação. O governo estadual pressionava; a diretoria, acuada, recuava e rompia acordos. O movimento terminou com uma vitória moral. Reajuste, melhorias na alimentação e na creche e, sobretudo, a reafirmação do direito de lutar. Em agosto, as escadarias da Catedral Metropolitana se tingiram de vermelho e preto. Era o Dia Nacional de Luta dos Bancários, em homenagem ao aniversário da CUT. O ato reuniu bancários, eletricitários, petroleiros e servidores públicos. O Dieese registrava uma defasagem salarial de 295%, o maior índice da história até então.


A Folha Sindical exaltava a força da categoria:


“Os bancários são hoje a única categoria no país que se organiza nacionalmente, englobando bancos privados, públicos e financeiras.”


A gestão Compromisso de Luta (1990–1993), presidida por Vanio dos Santos, herdou uma categoria ferida pelo governo Collor. A diretoria entendia que resistir não bastava: era preciso reorganizar o movimento, formar consciência e ampliar a presença do sindicato no cotidiano da cidade.

1992, manifestação cidadã Fora Collor
1992, manifestação cidadã Fora Collor

O governo Collor seguia aprofundando o arrocho. Ainda em 1991, o país contabilizava cento e cinquenta mil bancários demitidos, vítimas da reestruturação financeira e do avanço das máquinas. Era o sétimo ano de uma reforma bancária que, sob o pretexto da “modernização”, abria o mercado nacional às instituições privadas e multinacionais. A Folha Sindical chamava o fenômeno pelo nome certo:


“A substituição do trabalho humano pela especulação automatizada.”


Em março de 1991, Florianópolis assistiu a dez mil trabalhadores tomarem as ruas contra o governo Collor. Bancários, professores, estudantes, servidores — uma multidão diversa que marchou da Praça XV até a Beira-Mar, sob o sol.


Naquele mesmo mês, os bancários do BESC enfrentaram uma nova rodada de negociações. Foram três dias de greve, onze reuniões e uma vitória expressiva: reajuste salarial conquistado em pleno governo Collor. A categoria reaprendia o que o arrocho tentava apagar, o poder da mobilização popular.


Enquanto o país ardia, o Sindicato se fortalecia por dentro. As discussões iniciadas pelo Movimento de Organização de Base (MOB) consolidavam uma nova estrutura: formações políticas, assessoria jurídica, articulação entre Sindicatos e movimentos sociais. A palavra formação ganhava tanto peso quanto greve.


1992, greve dos bancários
1992, greve dos bancários

Em 1992, a Folha Sindical alcançava sua 200ª edição. O jornal, que nasceu como boletim de greves, transformou-se em projeto político, cultural e pedagógico. A partir daquele ano, deixava de falar apenas das pautas bancárias. Abria-se à política social e econômica, à cultura, ao esporte e ao meio ambiente.


A mudança editorial espelhava o amadurecimento do sindicato. Inspirado pela bandeira da CUT — a “luta pela cidadania” — compreendia que a defesa do bancário era indissociável à defesa da democracia. A Folha resumia o espírito:


“Não basta resistir: é preciso explicar o que estamos resistindo.”


Em 1992, enquanto o país fervia nas ruas pedindo o impeachment de Collor, dentro do Sintrafi amadurecia outra transformação. Depois de vinte e dois anos improvisado em salas esparsas do edifício Tiradentes — espalhado do primeiro ao nono andar — o Sindicato se preparava para realizar um sonho antigo, acalentado desde a vitória do MOB: conquistar sua sede própria.


A Folha de maio estampava a manchete com entusiasmo:


“Sindicato realiza sonho e muda de sede.”


O texto descrevia o novo prédio como “moderno e espaçoso”, mas o significado ia muito além do concreto. A nova casa simbolizava unidade, estabilidade e futuro. Representava uma entidade que deixava de sobreviver nas frestas para afirmar-se como uma instituição sólida e autônoma.


No dia 22 de maio de 1992, o Sindicato mudou-se para o prédio da Rua Visconde de Ouro Preto, nº 308 — um marco que selava o fim de um ciclo e abria outro, no edifício batizado João Cândido Rodrigues, em homenagem a um dos fundadores.


Com a reestruturação, o Sindicato passou a operar em múltiplas frentes. A Secretaria de Formação Sindical preparava novos dirigentes em cursos sobre história do movimento sindical, negociação coletiva e saúde no trabalho. A Secretaria de Assuntos Socioeconômicos produzia análises e subsídios técnicos para fortalecer as campanhas salariais. A Secretaria Jurídica, antes voltada a casos individuais, transformou-se em núcleo de ações coletivas, cobrando na Justiça as perdas inflacionárias dos planos econômicos. E a Secretaria de Cultura levou a política para fora das paredes: teatro em agências, música em praças.


O novo modelo de sindicalismo — cidadão — marcou um rompimento com o passado assistencialista. O Sintrafi tornava-se, enfim, um organismo político e cultural, capaz de articular o cotidiano da categoria às lutas mais amplas.


Em janeiro de 1993, Vanio esteve em Brasília em reuniões com Danilo Castro, novo presidente da Caixa Econômica Federal. Levava na bagagem as denúncias que se acumulavam contra a direção regional em Santa Catarina, chefiada por Juarez Alves Nunes — acusado de autoritarismo e de conchavos herdados do governo Collor, num processo que acelerava o desmonte do banco. Poucos meses depois, Juarez seria transferido para o Paraná, por determinação da direção-geral, em resposta à pressão do Sindicato.


1992, manifestação Fora Collor
1992, manifestação Fora Collor

Em agosto, uma nova frente de batalha se abriu — desta vez, dentro do próprio movimento sindical. Num sábado chuvoso, 22 de agosto, um grupo de pelegos, liderado pelo diretor da Contec, Ilson Ulmer Dias, tentou fundar, às escondidas, um sindicato-fantasma em São José. A tática, antiga, era conhecida, criavam-se entidades de cartório para dividir a base e enfraquecer o movimento combativo.


A Folha Sindical denunciou a manobra com ironia e contundência:


“Sindicato-fantasma é invenção de quem tem medo do vivo.”


O golpe foi desarmado pela presença em massa dos bancários, que ocuparam o local da assembleia, impediram a votação e, em seguida, ingressaram com medida cautelar para anular o registro. Vanio foi agredido pelo presidente da Federação dos Bancários de Santa Catarina, Círio Vicente — episódio que escancarou o abismo entre o sindicalismo pelego e o sindicalismo de base.


Enquanto o governo Itamar Franco se esforçava para estabilizar a economia e acalmar o rastro de inflação deixado por Collor, os bancários viviam o turbilhão de uma mudança histórica: em 1º de julho de 1994, o Plano Real entrou em vigor.


Em apenas quinze dias, trinta e uma mil agências bancárias do país trocaram cruzeiros reais por reais em 44 milhões de contas-correntes e 47 milhões de cadernetas de poupança. Foram seiscentos mil bancários trabalhando no sábado e no domingo, sessenta mil homens das Forças Armadas e da Polícia Federal


mobilizados em seis mil viagens, com três mil carros-fortes. O país assistia, em tempo recorde, à maior operação financeira de sua história.


No mesmo período, o Sindicato enfrentava embates locais que revelavam o quanto a democracia ainda engatinhava. O presidente da Câmara de Vereadores de Florianópolis, Michel Curi (PPR), moveu processo contra o diretor de imprensa Artur Raffs Machado e o jornalista Jacques Mick, da Folha Sindical. O crime? Uma reportagem que denunciava as manobras da maioria conservadora da Câmara para alterar as prioridades do Orçamento Participativo — o instrumento que dava à população o direito de decidir onde investir o dinheiro público.


No plano estadual, o Sindicato se aliava a movimentos sociais e sindicais em torno da bandeira cidadã — símbolo da CUT. Marchou no Grito da Terra, em 12 de maio, ao lado de mil colonos que protestavam contra o governo de Antônio Carlos Konder Reis, denunciando a miséria que atingia um milhão de catarinenses. Apoiou a Ação da Cidadania contra a Fome, liderada pelo sociólogo Betinho, que naquele ano receberia o título de Doutor Honoris Causa pela UFSC.


O presidente da CUT/SC, Alípio Inácio Alves, sintetizava a aliança:


“O campo e a cidade de mãos dadas, com fé e luta, caminhando juntos.”


Filho de uma família com treze irmãos, nascido em um pequeno pedaço de terra no Oeste catarinense, entrou ainda jovem na Pastoral da Terra, onde aprendeu que “fé sem obra é morta” e que rezar por justiça não bastava — era preciso organizar-se e lutar. A Teologia da Libertação guiava sua militância.


Nos anos 1980, ajudou a fundar o Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar e, três anos depois, assumiu a presidência da CUT regional; cinco anos mais tarde, a da CUT estadual. Sob sua liderança, emergiu uma geração que enxergava o sindicato como ferramenta de transformação social.


Naquele tempo, não havia SUS, seguro agrícola nem subsídios para pequenos produtores. As terras dos agricultores podiam ser penhoradas; as mulheres sequer eram reconhecidas como trabalhadoras — não tinham previdência, aposentadoria, auxílio-doença nem licença-maternidade. Foi na luta organizada, muitas vezes apoiada pelo Sintrafi, que se ergueram essas reivindicações.


Essa união fortaleceria a ação sindical em Santa Catarina e moldaria o tom político dos anos seguintes. Enquanto o movimento rural avançava na conquista da terra e da dignidade, os bancários ampliavam sua trincheira contra o poder financeiro e o autoritarismo econômico.


Foi nesse contexto de efervescência e solidariedade entre classes que o presidente Vanio pediu afastamento para disputar uma vaga de deputado. O Sindicato, porém, não parou: manteve a ofensiva contra o banqueiro José Eduardo de Andrade (PTB), que pretendia assumir a presidência do Bamerindus e usava o banco como trampolim político.


Seguiu também denunciando os fundos de pensão compulsórios criados pelo governo Itamar Franco, que forçavam trabalhadores a comprar notas do Tesouro Nacional, num arranjo que a Folha Sindical classificou como “poupança forçada a serviço do mercado”.


O governo Fernando Henrique Cardoso inaugurava um ciclo em que a palavra modernização servia de disfarce para um projeto mais profundo, o desmonte do Estado e a transferência do patrimônio público ao capital financeiro. A automação bancária, que desde o fim dos anos 1980 avançava como um rolo compressor, ganhava fôlego e justificativa política. As máquinas substituíam pessoas, e a tecnologia se tornava instrumento de controle.


Um engenheiro da SWIFT resumiu a intenção em um congresso latino-americano:


“Com a automação, mesmo em caso de greve, é possível manter o serviço funcionando.”


A greve — símbolo máximo do poder coletivo — começava a perder sua capacidade de interrupção. O Sintrafi, então, reinventou a resistência: menos reação, mais formação. Passou a denunciar o avanço do neoliberalismo bancário, que transformava direitos em custos e trabalhadores em estatísticas.


Greve 1992
Greve 1992

As páginas da Folha Sindical de 1995 abriram fogo contra o arrocho disfarçado de estabilidade. O jornal mostrava, com dados do Dieese, que as taxas de juros — 7% reais, as mais altas do planeta — drenavam a riqueza nacional para os cofres dos banqueiros.


“O Brasil não estabilizou: empobreceu com elegância”.


As reformas constitucionais de Paulo Paiva, ministro do Trabalho, pretendiam “flexibilizar” a CLT, permitindo que acordos coletivos anulassem garantias legais. Nos anos seguintes, a engrenagem neoliberal se aperfeiçoou.


Entre 1995 e 2002, o governo FHC montou uma engenharia financeira que redesenhou o mapa bancário do país. O PROER (1995) socorreu bancos privados com recursos públicos. O PROES (1996) obrigou os Estados a privatizarem seus bancos em troca do refinanciamento das dívidas. O BNDES conduziu os leilões. E a Lei 9.496/97, seguida da Lei de Responsabilidade Fiscal (2000), amarrou o ciclo em definitivo. Banespa, Banerj, Banestado, Bemge — todos vendidos. O Brasil assistia à desmontagem de seu sistema público financeiro.


Em 1996, a Folha Sindical passou a chamar as coisas pelo nome: “plano de arrocho”, “privataria bancária”, “recolonização econômica do Brasil”. O jornal denunciava que 52% da nova dívida interna financiava o socorro ao sistema financeiro — e não investimentos sociais.


“O governo dá todas as condições aos banqueiros para literalmente roubarem a população.”


O ano de 1997 levou a radicalização ao limite. Após o crash das bolsas internacionais, FHC anunciou um novo pacote de ajuste. A Folha chamou de “violência econômica travestida de política” e acusou o governo de submissão ao FMI. Enquanto as manchetes mostravam o entreguismo, o sindicato celebrava dez anos do MOB:


“O sindicato não nasceu em gabinete — nasceu de calo, praça lotada e coragem coletiva.”


A década começou sob o peso do Plano Collor e terminou sob a sombra das privatizações. Com o Movimento Unificado Contra as Privatizações (MUCAP), o Sintrafi uniu forças com MST, CUT e servidores públicos, levando às ruas a bandeira da soberania catarinense.


1997 - Grito dos excluídos
1997 - Grito dos excluídos

O ano de 1999 confirmou o acerto dessa aposta. Nasceu a Frente Catarinense em Defesa do BESC, reunindo CUT, MST, sindicatos, parlamentares, prefeitos e entidades empresariais em torno da mesma causa, manter o banco do povo em mãos públicas.


A década terminou com a crença fortalecida na palavra — e com a certeza de que, nas páginas da Folha Sindical, o Sindicato havia forjado uma arma afiada.


FOLHA SINDICAL 1990-1999


Passeata 37 anos Besc - 21 de julho 1999
Passeata 37 anos Besc - 21 de julho 1999

1990O arrocho institucionalizado Plano Collor congela salários, confisca poupanças e paralisa o país. Greve de catorze dias no BESC revela resistência e poder de mobilização. MP 193 legaliza perdas e inaugura a era do arrocho permanente. “Se o governo aposta no caos, nós apostamos na consciência.”


1991 O país nas ruas Dez mil trabalhadores marcham em Florianópolis contra Collor. Três dias de greve no BESC garantem reajuste em plena recessão.


O sindicato estrutura formações políticas e amplia alianças com movimentos sociais. “A greve ensina o que a miséria tenta apagar: a força da união.”


1992 — O ano da casa e da rua. Nasce a nova sede na Visconde de Ouro Preto: símbolo de unidade e futuro. Caras-pintadas tomam as ruas e a Folha se assume espelho da democracia. Sindicato alia cidadania, cultura e política como eixos de ação. “O sindicato tem agora um teto — mas sua voz continua nas praças.”


1993 — Contra o silêncio e o racismo. Sindicato faz denúncia inédita ao Ministério Público por violência racial contra bancário do BESC. Bancários barram a criação de um sindicato-fantasma em São José. A 200ª edição da Folha celebra o jornal como projeto político e pedagógico. “Sindicatos fantasmas temem o vivo — o que fala, luta e não se cala.”


1994 — A troca da moeda e o preço da estabilidade. Plano Real mobiliza 600 mil bancários em operação histórica. Pesquisa do sindicato em Florianópolis com 1.300 bancários revela: Lula 40%, FHC 11%. O Sintrafi apoia o Grito da Terra e a campanha de Betinho contra a fome. “O país trocou de moeda, mas não de miséria.”


1995 — A virada neoliberal. Plano Real consolida arrocho e desemprego disfarçados de modernidade. Greve dos petroleiros é reprimida pelo Exército — e apoiada pelo sindicato. “Querem legalizar o ilegal — e chamar arrocho de estabilidade.”


1996 — Cidadania como nova forma de greve. Campanha “Emprego, Salário e Cidadania” redefine a pauta sindical. Sindicato denuncia “privataria bancária” e a dívida que engorda banqueiros. Movimentos sociais e CUT se unem contra o desmonte do Estado. “A resistência é a forma de sobreviver em tempos de ajuste.”


1997 — Dez anos de MOB, dez anos de resistência. Crise do Real e pacote neoliberal de FHC reacendem a indignação. A Folha liga política econômica à violência social: fome e desemprego como armas. O jornal se torna voz nacional contra o projeto neoliberal. “Enquanto houver arrocho, haverá jornal — e memória.”


1998 — A era da indignação organizada. Campanhas unificam bancários, MST e servidores contra as privatizações. Humor e ironia viram ferramentas de pedagogia política. “Não é o povo que está em crise — é o modelo econômico.”


1999 — O BESC e o renascimento da esperança. Criação da Frente Catarinense em Defesa do BESC une campo e cidade.+ O jornal transforma a luta em consciência nacional. “É na adversidade que os trabalhadores constroem a História.” 


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