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CAPÍTULO 2 - Soberania Ameaçada

  • 29 de abr.
  • 19 min de leitura

Atualizado: 1 de mai.

2.000 - Brasil 500 Anos - Ato em frente ao Relógio da Globo Beira Mar Norte
2.000 - Brasil 500 Anos - Ato em frente ao Relógio da Globo Beira Mar Norte

O país cambaleava na virada do milênio. O Brasil de Fernando Henrique Cardoso se alimentava das privatizações. O discurso era o da eficiência; a prática, a do desmonte. Bancos estaduais, empresas públicas, estradas, energia — tudo à venda. O sistema financeiro, guiado pelo capital internacional, tratava o patrimônio coletivo como um feirão.


Em Santa Catarina, o governador Esperidião Amin, sob o verniz técnico da “modernização”, mantinha a velha obsessão de transferir bens públicos às mãos do mercado. “Federalizar” virou sinônimo de sentença de morte. O banqueiro passou a representar o futuro; o funcionário público, o atraso.


À frente do sindicato estava Rogério Soares Fernandes — na trincheira. Os ataques vinham de todos os lados. Enquanto os bancos privados cresciam sob as reformas de FHC, o Banespa era entregue ao Santander, o Meridional demitia em massa e o BESC estava na mira.


A Folha Sindical denunciava a “trindade entreguista” — FHC, na presidência; Amin, no Estado; e Bornhausen, no Senado — acusados de se unir para vender o banco, ignorando a clara oposição popular.


Em abril de 2000, o Sintrafi organizou uma paralisação de 24 horas nas agências do BESC com 90% de adesão em todo o Estado. No mês seguinte, o sindicato encenou a "Malhação do Judas” Amin. Um ator, vestido de imperador romano, malhava o boneco que representava o governador. Enquanto o povo batia, o Sindicato distribuía panfletos sobre os malefícios da privatização.


Outra mobilização girou em torno das comemorações do “descobrimento”. O país assistia à instalação dos chamados “relógios da Globo” em várias capitais. Em Florianópolis, o relógio foi erguido na Beira-Mar Norte — simbolizando o que o país já não queria mais celebrar, a colonização portuguesa.


Na manhã de 22 de maio, cerca de cem manifestantes pacíficos — entre eles lideranças do Sintrafi — protestavam contra o monumento, quando a PM catarinense, com tropa de choque, cassetetes, bombas de gás e tiros de balas de borracha, mostrou a quem servia. Um estudante de 17 anos foi baleado três vezes nas costas. Um homem, atingido no rosto, teve o maxilar fraturado. O grotesco espetáculo da polícia pública a serviço de um relógio privado — que sequer corria risco de dano material — foi noticiado na Folha Sindical:


“Nítido desrespeito policial à democracia. Relógio de estética duvidosa, erguido com o entusiasmo subalterno do governo FHC.”


O ano seguinte começou em chamas. Em janeiro de 2001, a deputada Ideli Salvatti (PT) ingressou no Supremo Tribunal Federal com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra o governo Amin, que, por meio de uma Medida Provisória, tentava forçar a federalização do BESC — prerrogativa exclusiva do presidente da República. A liminar concedida pelo STF abriria uma brecha para reverter o processo e atribuir ao governador o crime de responsabilidade fiscal.


Amin liderava o plano sob o slogan “federalizar ou matar”, justificando a manobra como uma “capitalização de emergência”. Na prática, significava a injeção de R$ 780 milhões — parte de um total de R$ 2,1 bilhões — que endividaria o Estado e empurraria o banco à venda. O Sintrafi reagiu com veemência:


“Não é a morte do banco que eles planejam — é o funeral da soberania catarinense.”


A Folha Sindical acompanhava o caso em tempo real, denunciando o desvio da lógica pública e o cinismo político travestido de eficiência econômica. Enquanto o governo falava em “salvar o banco”, o sindicato via a pilhagem institucional disfarçada de salvação.


Nos bastidores, a direção do BESC queria liquidar o banco a qualquer custo. Valia tudo — mentiras, chantagens, boatos, dossiês apócrifos — numa campanha orquestrada para desmoralizar a instituição, confundir a opinião pública e rachar a categoria.


2001 - Greve BESC (NOV)
2001 - Greve BESC (NOV)

Foi nesse contexto que ganhou destaque o advogado Antônio Carlos da Silva, bancário do próprio BESC e um dos fundadores do Movimento de Oposição Bancária (MOB). Quando o Banerj foi privatizado, ele assumiu a defesa jurídica do sindicato catarinense, iniciando uma batalha de oito anos nos tribunais para barrar a entrega do BESC — um banco com cerca de seis mil empregados em Santa Catarina, sustentado pelo orgulho popular e pela história de financiamento do desenvolvimento regional.


Entre os que resistiam também estava Zé Carlos da Silva, que entrou no BESC em 1974 e lecionava técnicas bancárias no Colégio Aderbal Ramos da Silva. Ingressou no sindicato em 1992, movido pela “angústia da relação entre capital e trabalho” e pela dor de ver um banco público ser usado como instrumento político.


“Mexeram no lugar errado. O BESC era o orgulho de Santa Catarina. A população se revoltou. Chegaram a fazer uma pesquisa: o banco tinha aprovação maior que a da Coca-Cola.”


A resistência se organizou em duas frentes — a política e a jurídica —, coordenadas por lideranças como Antônio Carlos da Silva e Zé Carlos, este que, em 2002, assumiu a coordenação do MUCAP (Movimento Unificado Contra as Privatizações).


Essa resistência ganharia novo fôlego quando uma das lideranças do MUCAP Rui da Luz, conseguiu incluir, na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, o compromisso de suspender a privatização do BESC, caso vencesse. Era o início de uma virada política e simbólica: o sindicalismo catarinense voltava a influenciar a agenda nacional.


A outra vitória fundamental veio nos tribunais. O juiz substituto da 3ª Vara Federal de Florianópolis, Cláudio Roberto da Silva, ordenou a reversão da transferência das ações e do controle acionário do BESC para a União. Na decisão, o magistrado reconheceu ilegalidades no processo de federalização e determinou a retransferência das ações ao Estado de Santa Catarina.


A sentença encerrava, em primeira instância, uma ação popular proposta em agosto de 2000 por Ideli Salvatti, Milton Mendes de Oliveira, Rogério Soares Fernandes e Alfredo Rossi — nomes que há anos compunham a resistência.


O juiz foi categórico:


“A alienação do controle acionário do BESC deveria ter ocorrido por licitação, não havendo qualquer razão para impor a União como única adquirente apenas porque implementaria a privatização.”


Em sua decisão, ainda escreveu:


“Bem público é conceito de muita importância à administração, já que serve à promoção de seus fins, para que se admita entregá-lo à conta de virtual vantagem e incerto leilão de privatização. Não se conhece caso em que a licitação seja dispensada para permitir que o administrador aventure-se em negócios com bens públicos.”


Foi um gesto de alto alcance — um fortalecimento para a defesa do sindicato, que provava que o BESC não era um peso morto, como a “trindade entreguista” tentava propagar, mas um instrumento de desenvolvimento, crédito popular e autonomia econômica. A sentença serviu de base para mais de trinta ações movidas pelo Sintrafi. As edições da Folha Sindical deixavam claro:


“O BESC não é um problema a ser resolvido — é uma solução que querem apagar.”


O 40º aniversário do banco, em 2002, virou ato político.


“Quarenta anos de história — e nenhum dia de submissão.”


A atuação de Rui Richard da Luz galvanizou a base. O sindicato escrevia, articulava, planejava o contra-enredo. Enquanto os gestores do banco se aproximavam do mercado, o sindicato se aproximava da classe trabalhadora.


Rui nasceu e foi criado no morro de Florianópolis. Conhecia o que era a exclusão — e foi na luta estudantil que aprendeu a transformar indignação em projeto. Aos 15 anos, integrava a União Florianopolitana de Estudantes Secundaristas (UFES), enquanto cursava o Instituto Estadual de Educação. Como jovem bancário, em 1993, recebeu um convite que mudaria sua vida.


“Era um domingo à noite. Rogério Soares Fernandes, João Carlos Nogueira e Evilásio Silva Pereira me chamaram pra conversar na rodoviária. Eu estava no auge, fazendo curso de gerência, com 25 anos. Larguei tudo e entrei na chapa.”


Venceram a eleição. Nos anos seguintes, sua liderança cresceu. E então veio 2003. Um operário chegava à Presidência da República — e, com ele, a promessa de que o país voltaria a falar a língua dos que vivem do próprio suor. O Sintrafi viu naquele momento a brecha histórica para reconstrução.


Rui levou a pauta ao novo governo e exigiu a substituição imediata da “diretoria da destruição”, herança do ciclo tucano que havia conduzido o BESC à beira da privatização. Com o novo governo, a esperança ganhava fôlego — mas o Sindicato sabia que nenhuma vitória era definitiva. Era preciso vigiar, organizar e se apoderar da narrativa. A luta pelo BESC não era apenas financeira, era uma disputa ideológica.


Naquele mesmo ano, o Sindicato ampliou suas fronteiras. Em Porto Alegre, nas tendas do Fórum Social Mundial, apresentou o painel “O sistema financeiro e o desenvolvimento social”, levando a voz dos bancários catarinenses às rodas internacionais de debate.


“É preciso que o sindicalismo se una para transformar o sistema, e não apenas sobreviver a ele. Chegou a hora de discutir o papel do sistema financeiro como agente do desenvolvimento humano.”


2001, campanha em defesa do BESC
2001, campanha em defesa do BESC

O Sintrafi sabia que mudança de governo não é mudança de estrutura. Por isso, o tom do Sindicato com a chegada de Lula ao poder foi de esperança vigilante.


Sob governo lulista, os bancários de bancos públicos e privados marcharam juntos contra o avanço das privatizações e a precarização das condições de trabalho. A Greve Nacional dos Bancários de 2004, com trinta e um dias de paralisação, seria lembrada como a mais longa e vitoriosa desde os anos 1980. A direção que tentou vender o BESC não imaginava que, ao acender o estopim, criaria uma geração inteira de dirigentes forjados na perseverança.


Nos dias 7 e 8 de abril de 2005, os bancários foram às urnas e elegeram, com 93,05% dos votos, a nova direção do Sintrafi. A Chapa 1 – Ação & Luta pra Conquistar, construída na Convenção dos Bancários da CUT, reuniu antigos e novos militantes, sob liderança de Jacir, em torno de um mesmo propósito — justamente no ano em que a entidade completava 70 anos.


Sete décadas após sua fundação, o Sindicato celebrava a permanência da verve coletiva. A memória da grande greve do ano anterior ainda ardia na base. O movimento havia recolocado a categoria no centro do cenário nacional e reacendido o sentido político da união.


À frente da nova gestão Jacir articulou moções, plenárias, audiências e atos unificados. Ao lado da Fetec/CUT-SC e da Contraf/CUT, ergueu uma das maiores campanhas da década em defesa do BESC. No auge das negociações, o Sindicato denunciou o autorreajuste de 360% concedido aos dirigentes do banco. A greve nacional com paralisações em bancos públicos e privados se notabilizou pela solidariedade transversal: MST e CUT juntos na Praça XV, em um 1º de maio de aliança entre o campo e a cidade.


Em 2006, o cenário financeiro exibia lucros recordes, enquanto o cotidiano bancário se tornava cada vez mais cruel. As páginas da Folha Sindical denunciavam demissões em massa, assédio moral e o avanço de uma nova doença invisível, a pressão emocional por metas inalcançáveis. Convidada pelo Sindicato para palestrar, a professora Lucimara Frutuoso (UFSC) mostrou como a neurose do lucro se infiltrava no corpo dos bancários: tendinites, depressões, crises de pânico — sintomas de um sistema desumanizante.


O Sindicato moveu ações coletivas, criou comissões paritárias e incluiu, pela primeira vez, cláusulas contra o assédio moral nas negociações nacionais. Ao mesmo tempo, Jacir e sua diretoria fortaleceram os elos com a Fetec e a Contraf, fazendo do sindicato catarinense uma referência nacional em formulação política:


“É hora de reafirmar: o lucro não pode estar acima da vida.”


O último ano da gestão Jacir foi também um dos mais intensos da história recente do Sintrafi. Santa Catarina vivia sob o governo de Luiz Henrique da Silveira e o discurso da “modernização administrativa”. O BESC estava novamente na linha de tiro. O governo estadual tentou leiloar as contas-salário do funcionalismo público, e o Sindicato reagiu com força. As praças de Florianópolis tornaram-se palcos de atos e passeatas, com faixas:


“O BESC é do povo. Não está à venda.”


Ao mesmo tempo, em Brasília, tramitava a Emenda Constitucional nº 3, que pretendia legalizar a pejotização e esvaziar a fiscalização trabalhista. Jacir percorreu plenárias, concedeu entrevistas e escreveu artigos contundentes:


“A Emenda 3 é a legalização da exploração — o retrocesso travestido de modernidade.”


O Sintrafi participou do Fórum Unificado de Lutas, denunciou o assédio moral e os abusos de jornada, e articulou a criação de uma Comissão Paritária Permanente no BESC. A diretoria — com nomes como Cássio Ricardo Marques, Jozi Fabiani Mello, Schirlei Azevedo e Hélio Prado — atuava com vigor pedagógico e comunicativo. As greves de 2007 uniram gerações, jovens bancários, filhos do mundo digital, marchavam ao lado dos veteranos. Ao final do triênio, o sindicato emergiu mais forte e consciente do próprio papel.


Após a gestão de Jacir, quem assumiu a presidência do Sintrafi foi Clóvis Mena Dutra. O ano de 2008 amanheceu sob o som metálico das fusões. Nos jornais, o sistema financeiro celebrava lucros recordes; nas agências, o trabalhador bancário contava as horas de incerteza. O BESC seria incorporado ao Banco do Brasil. A notícia caiu como um raio sobre os catarinenses — e sobre o Sintrafi —, quando Clóvis Mena Dutra transformou em mobilização o medo coletivo.


Clóvis era um dirigente que unia o cálculo político à clareza da convicção. Sob sua liderança, o Sindicato deu continuidade à defesa dos besquianos.


Natural de Dom Pedrito (RS), Clóvis chegou ao movimento pela base. Sua companheira, Ana Maria Faria Dutra, natural de Rio Grande, também bancária, ingressou na Caixa em 1978; Clóvis, dois anos depois, em fevereiro de 1980. Casaram-se em 1981 e, no fim da década, mudaram-se para Florianópolis, onde a militância logo se confundiu com a vida.


Clóvis participava de panfletagens de madrugada, colando cartazes nos postes no centro da cidade. Em certa noite, perseguido pela polícia, correu até a Catedral, onde o padre expulsou os agentes e lhe deu abrigo. Nas assembleias dos anos 1990, as filhas pequenas corriam entre os bancos da Praça Pires Coutinho, enquanto os pais discutiam pautas, salários e direitos.


Em 1992, Clóvis participou de uma das últimas grandes greves no histórico Miramar. A incorporação do BESC ao BB dominava as pautas, os corredores e as assembleias. O sindicato exigia preservação de direitos, planos de carreira justos, segurança nas agências e a manutenção do caráter público da instituição.


“Queremos dignidade para os bancários e nossos direitos preservados e ampliados”, declarou Clóvis em um dos atos em Florianópolis.


A greve nacional paralisou agências do HSBC, Bradesco, Santander, Itaú e Caixa. O movimento foi nacional, mas em Santa Catarina ganhou contornos históricos. Durante dezesseis dias, as portas permaneceram fechadas. O sindicato organizou atos, caminhadas e uma manifestação simbólica pelos 200 anos do Banco do Brasil, em frente à agência da Praça XV, no coração da cidade.


A greve terminou com ganhos salariais, avanços em cláusulas sociais e, sobretudo, com a reafirmação de uma ideia antiga e urgente: o banco é feito de pessoas, não de cifras.


“Mesmo com um processo difícil de negociação, a categoria conseguiu, de forma ordenada e tranquila, terminar a greve”, registrou Clóvis.


As pautas nacionais refletiam um tempo de contradições. Os lucros dos bancos cresceram mais de 30% em relação ao ano anterior, mas cresceu também a rotatividade, o adoecimento e o assédio psicológico. As edições da Folha Sindical denunciavam o avanço das metas abusivas, o fechamento de agências e a precarização silenciosa do trabalho digital.


2009, mobilização nacional em Florianópolis (20/02)
2009, mobilização nacional em Florianópolis (20/02)

Ao mesmo tempo, o país vivia o embate entre o avanço do capital financeiro e a tentativa de reconstruir o papel do estado. O Plebiscito da Vale, que questionava a privatização da mineradora, e a repercussão local da Operação Moeda Verde — escândalo que envolveu empresários e licenças ambientais em Florianópolis — tornaram-se representações do desequilíbrio entre o poder econômico e o interesse público.


Foram anos de greves intensas, negociações duras e vitórias parciais. No final da gestão de Clóvis, as engrenagens do capital giravam com violência — enquanto o Sindicato, na dor e na persistência, transformava o caos em organização. Em 2009 a incorporação do BESC pelo Banco do Brasil produziu efeitos que estavam longe de ser apenas administrativos. Para milhares de trabalhadores, significava o rompimento de uma identidade, de um vínculo.


Os bancários egressos do BESC — que haviam construído o banco público catarinense com décadas de trabalho — passaram a conviver com instalações precárias, perdas salariais, descontos indevidos em folha, desrespeito às cláusulas da incorporação e um tratamento desigual no BB.


O Sindicato entrou na justiça contra o Banco do Brasil, denunciando os abusos e exigindo a correção dos descontos ilegais. O clima era de indignação. Entre audiências e protestos, o Sindicato reafirmava o óbvio: não há transição legítima quando se atropela os direitos dos trabalhadores.


Nos bancos privados seguia-se o curso de expansão e corte, disfarçado de “reestruturação”. O país crescia, os lucros explodiam — mas os empregos encolhiam. Em meio à crise, uma conquista histórica: a licença-maternidade de 180 dias no Banco do Brasil, resultado direto da pressão sindical nacional.


No segundo semestre, uma nova greve nacional dos bancários sacudiu o país. Foram vinte e oito dias de paralisação na Caixa e quinze no Banco do Brasil, até a vitória, reajuste salarial de 6%, ganhos reais e manutenção das cláusulas sociais.


2012, ato em apoio aos Guaranis Kaiówas (09.11)
2012, ato em apoio aos Guaranis Kaiówas (09.11)

O ano de 2010 chegou como uma dobra no tempo. Enquanto o mundo ainda contabilizava as ruínas da crise global, o Sintrafi celebrava 75 anos de fundação — três quartos de século de embates, conquistas e sobrevivência.


A Campanha Nacional dos Bancários de 2010 ficou marcada como uma das mais fortes da década. Greves pelo país com adesão maciça em bancos públicos e privados. Em Florianópolis, a base respondeu com uma força que surpreendeu até os veteranos. O resultado foi expressivo, reajuste de 7,5%, ganho real acima da inflação.


Vitórias concretas num embate árduo. A cada nova paralisação, os bancos recorriam aos interditos proibitórios — instrumentos jurídicos usados para sufocar o direito de manifestação. Em 2010, o sindicato enfrentou três: Bradesco, Santander e Itaú. A diretoria buscou o presidente do TRT de Santa Catarina, juiz Gilmar Cavalieri, denunciando os abusos e garantindo o direito de greve.


“Agimos com inteligência e firmeza. Inibimos os excessos e fizemos uma greve consistente”, declarou Clóvis.


Setenta e cinco anos depois de sua criação, o Sindicato seguia de pé — velho de história, mas jovem de fôlego. Em tempos de globalização financeira e apagamento de direitos, reafirmava que, sem luta, não há permanência.


Clóvis Mena Dutra, presidente no mandato 2008-2011
Clóvis Mena Dutra, presidente no mandato 2008-2011

A luta, em 2010, ultrapassou os muros das agências. A Folha Sindical apontava o dedo para o centro do poder, denunciava a conivência de ministérios e governos com os interesses dos bancos, criticava o acordo da Previ e evocava as reformas neoliberais de 1997, quando o Banco do Brasil perdoava suas próprias dívidas com o dinheiro dos trabalhadores — e ainda chamava de acordo.


Ao completar 75 anos, o Sindicato festejou com o Baile dos Bancários — um raro respiro coletivo depois de tantas batalhas. A festa, realizada em novembro, foi a reafirmação do laço humano que sustenta o sindicalismo.


“A alegria é a língua que mantém o trabalhador vivo.”


Clóvis encerrou sua gestão com o mesmo espírito com que a começou, defendendo direitos e princípios. Sob sua presidência, o Sindicato enfrentou gigantes, conquistou respeito jurídico e consolidou uma reputação de seriedade e coragem. Em julho de 2025, os colegas se despediram de Clóvis Mena Dutra, que partiu em consequência de um AVC. Seu nome permanece entrelaçado à história do Sintrafi como o de quem acreditou, até o fim, que vale lutar.


A gestão seguinte contou com chapa mista entre o grupo CUTista CDS, responsável pelo tomada do Sindicato das mãos dos pelegos nos anos 1980, e a Oposição Bancária, representante de outra central sindical. O processo que mobilizou centenas de bancários e reacendeu o debate sobre o futuro da entidade era movido por um ciclo de disputas internas, que iniciou em 2008.


As Folhas Sindicais de fevereiro e março registram o clima daquele período. Assembleias lotadas, discussões acaloradas, esperanças e tensões. Nos dias 13 e 14 de abril, os bancários foram às urnas, com duas chapas em disputa. A vitória da Chapa 2, com 1.011 votos contra 482, foi a afirmação da força do voto e da alternância — sinais de uma democracia sindical amadurecida.


À frente da nova gestão, assumiu Cássio Ricardo Marques, num contexto nacional de reestruturações bancárias, demissões em massa e avanço da terceirização. O Sindicato enfrentava um cenário em que o capital financeiro se digitalizava e o trabalhador era reduzido a número. Foram anos de travessia, em que a instituição experimentou a divergência — parte inevitável de qualquer entidade viva. Cassio ficou à frente do Sintrafi até 2012, quando o cargo foi assumido por Jacir, com a experiência trazida de suas duas outras gestões.


O triênio 2011–2014 seria lembrado como um tempo de disputas intensas, mas também de aprendizado coletivo e afirmação das vozes plurais que compõem a categoria bancária. Cada gestão, com seus acertos e limites, representou o esforço do trabalho organizado frente ao poder do capital.


Jacir deixou a presidência com o mesmo espírito com que a havia assumido, sereno, firme e profundamente humano. Continuou presente, sempre preferindo o diálogo à retórica. Sua figura era a de um professor para os companheiros — aquele que não precisava do cargo para liderar. Com o tempo, sua presença virou referência — e, depois, saudade.


Jacir nasceu em Alpestre (RS), em 1961. Filho de agricultores — o pai, descendente de alemães; a mãe, de italianos —, cresceu na roça, o mais velho entre cinco irmãos. Desde menino, tinha alma inquieta. Estudou Ciências Sociais na UFSC e fez da militância um modo de estar no mundo. Sempre envolvido em causas coletivas, defendia as minorias com convicção. Tinha o dom da fala — e, mais raro, o dom da escuta.


Conversava com todos, sem hierarquia. Era um homem de ternura revolucionária. Conheceu Prisca Saul em setembro de 2016, embaixo da tenda do Sindicato na Praça XV, durante uma greve. Ela, mãe solo haitiana, estava sozinha em Florianópolis, com o pequeno Davi no colo e quase sem falar português. Com o tempo, nasceu o amor.


“Ao lado dele eu me sentia livre. Não era o tipo de homem que fala bonito na rua e faz o oposto dentro de casa.”


Em abril de 2019, Jacir propôs:


“Vamos ter nossa filha agora. Quero muito uma menina.”


Veio Lia, e ele passou o ano inteiro com a filha no colo — paizão, dançando com a menina pela sala, brincando com ela no sofá.


Dois anos depois, Jacir contraiu covid-19 enquanto distribuía alimentos com o MST. Seu último ato público foi em 31 de maio de 2021 — em cima de um caminhão de som, chamando o povo à luta. Pela conduta criminosa de Jair Bolsonaro, ainda não havia vacinas disponíveis para a população.


Jacir morreu em casa, no dia 12 de junho, véspera de completar 60 anos. Deixou quatro filhos — Luís Gustavo, João Vitor, Davi e Lia — e uma memória luminosa. Lia, ainda pequena, é o retrato do pai, um espírito ligado à justiça. Prisca faz mestrado em Engenharia Sanitária na UFSC. O prédio do Sintrafi foi rebatizado Jacir Zimmer, uma das várias iniciativas para manter o seu legado vivo.


“Jacir acreditava na justiça, acreditava nas pessoas, acreditava que o trabalho dele valia a pena”, contou sua amada Prisca.


Jacir Antônio Zimmer, presidente nos mandatos 2005/2008 e 2012/2014
Jacir Antônio Zimmer, presidente nos mandatos 2005/2008 e 2012/2014

Acreditava — e fez valer.


Com o Brasil rachado, começou 2014. Jacir deixou a presidência com a entidade estruturada e pronta para outro ciclo de lutas. No mesmo compasso em que a nação se preparava para escolher sua presidente, o Sintrafi vivia sua própria disputa. Dentro e fora do Sindicato, o clima era de divisão, incerteza e urgência.


Nesse cenário, duas vozes ajudaram a reerguer o diálogo e a devolver o sindicato às suas bases. De Ituporanga, vinha Jozi Fabiani Mello, bancária do Meridional desde 1985, ativista de greves e uma das pontas de lança do movimento. Foi dela a proposta que, em 2007, daria origem à Secretaria das Trabalhadoras do Sistema Financeiro — um marco na política sindical de gênero.


De Porto Alegre, Denilson Machado, criado na periferia do Jardim Ingá, começou no banco aos 15 anos, como office boy, e se formou nos cursos de base do sindicato gaúcho nos tempos de Olívio Dutra. Veio para Florianópolis em 1989 e logo se integrou ao Sintrafi, trazendo consigo o olhar crítico de quem conhecia a desigualdade por dentro.


Juntos, Jozi e Denilson ajudaram a reconstruir pontes num momento de fraturas — reafirmando que o sindicalismo, para sobreviver, precisa voltar a ser o que sempre foi, voz coletiva em meio ao ruído.


As manchetes do ano falavam em “polarização”; nas entrelinhas, era outra a história — a ofensiva neoliberal avançava sobre os direitos sociais e o estado.


Naquele janeiro, os bancários se reuniram no Florianópolis Palace Hotel. Dali sairia a comissão eleitoral e o calendário da votação que definiria os rumos da entidade. O processo, transparente e disputado, tornou-se insígnia da democracia sindical: voto secreto, mesas itinerantes, participação ampla.


Nos dias 14 e 15 de março de 2014, a eleição deu a vitória novamente a uma chapa integralmente CUTista, com 999 votos contra 740. O nome que emergiu como nova liderança foi o de Marco Aurélio Silveira Silvano. À frente da nova direção, o Sindicato traçou objetivos claros, reconstruir a unidade, reatar os laços com as federações e recuperar a confiança da base. O Sintrafi — como passaria a se chamar o antigo SEEB Florianópolis — renascia do próprio cansaço.


FOLHA SINDICAL 2000-2014


2012, intervenção cênica "Indecente é o lucro dos bancos" (01/09)
2012, intervenção cênica "Indecente é o lucro dos bancos" (01/09)

2000 — “Resistência à privataria tucana”. Em meio à onda de privatizações do governo FHC, a Folha reafirma o papel do BESC e dos bancos públicos na economia catarinense. “O banco público é o coração que ainda faz o Brasil pulsar.”


2001 — “Contra a venda do futuro”. Enquanto os gabinetes discutiam cifras bilionárias, FHC endurecia as regras da Previdência: a idade mínima para aposentadoria saltava de 55 para 60 e até 65 anos, impondo novo sacrifício à classe trabalhadora. Nas ruas, o descontentamento crescia.O país inteiro parecia empurrado a acreditar que o progresso exigia a renúncia aos próprios direitos. O BESC era atacado. “O patrimônio do povo não vai a leilão.”


2002 — “Quarenta anos de história, nenhum dia de submissão”. O BESC completa 40 anos e o sindicato transforma a data em ato político. “O BESC não é um problema — é uma solução que querem apagar.”


2003 — “Esperança vigilante”. O Sindicato se articula nacional e internacionalmente. Participa do Fórum Social Mundial e denuncia as direções privatistas. “O novo governo desperta esperança — mas exige vigilância.”

2003, manifestação contra a guerra promovida pelos Estados Unidos contra o Iraque
2003, manifestação contra a guerra promovida pelos Estados Unidos contra o Iraque

2004 — “Unificar para resistir”. A greve nacional de trinta e um dias marca época. Bancários de bancos públicos e privados marcham juntos pela primeira vez. “A unidade é o que transforma resistência em vitória.”


2005 — “Setenta anos de luta e consciência”. Ano da eleição de Jacir Zimmer. O sindicato reafirma o BESC como banco público e mobiliza uma das maiores campanhas da década. “O BESC não é apenas um banco — é parte da dignidade do povo catarinense.”


2006 — “O lucro não pode estar acima da vida”. A Folha denuncia o adoecimento por metas e o assédio moral. O sindicato cria comissões paritárias e insere cláusulas contra o assédio nas negociações nacionais. “Celebrar também é resistir.”


2007 — “O cerco neoliberal”. Sob Jacir Zimmer, o Sindicato reage à Emenda Constitucional 3 e ao discurso da “modernização”. Greves unificam gerações, e a Folha reafirma o valor da solidariedade. “O capitalismo mata o amor, a solidariedade e o respeito à vida — por isso lutamos.”


2008 — “Do medo à mobilização”. Com Clóvis Mena Dutra na presidência, o Sindicato enfrenta a incorporação do BESC ao BB. A Folha transforma a incerteza em ação coletiva e reafirma o valor humano sobre o lucro. “O banco é feito de pessoas, não de cifras.”


2009 — “Entre o fogo e o ferro”. A incorporação do BESC ao Banco do Brasil marca o ano. O Sindicato defende os “besquianos” e conquista a licença-maternidade de 180 dias. A greve nacional garante aumento real e cláusulas sociais. “Greve é o idioma que o banqueiro entende.”


2010 — “75 anos de história, coerência e coragem”. Comemoração das sete décadas e meia do sindicato. Greves nacionais conquistam reajustes e mantêm direitos. A Folha denuncia os interditos proibitórios e o perdão de dívidas do BB com a Previ. “A greve é o idioma que o banqueiro entende — e a alegria, a língua que mantém o trabalhador vivo.”


2011, Marcha dos Catarineses
2011, Marcha dos Catarineses

2011 — “Alternância e democracia sindical”. A vitória da oposição marca o início de um novo ciclo. Cássio Ricardo Marques assume, prometendo transparência e reaproximação da base. A Folha registra assembleias lotadas e um sindicato redescobrindo o valor do debate. “A divergência é o outro nome da democracia.”


2012 — “Base, diálogo e visibilidade”. Ano de retomada do vínculo com a categoria e de reconstrução do diálogo com as federações. A Folha aposta em comunicação direta e linguagem acessível, denunciando o avanço da terceirização e o fechamento de postos de trabalho. “A voz da base é o que mantém a luta viva.”


2013 — “Quem move o banco é o bancário” O Sindicato defende a proporcionalidade de gênero, reforça a organização de base e participa ativamente do III Congresso da Fetec-SC. A Folha dá voz às mulheres, às novas gerações e à crítica ao modelo exaustivo de metas. “Sem o trabalhador, o sistema financeiro não existe.”


2014 — “Reencontro e reconstrução”. O sindicato volta a respirar sob nova direção. Marco Aurélio Silveira Silvano assume em meio à polarização nacional e à intensificação das metas. As páginas da Folha pregam o recomeço, mesa única, Caixa pública e combate ao assédio. “Renascer também é uma forma de resistir.” 


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