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A gĂȘnese do Corporativismo - Os bancos no nascimento do capitalismo brasileiro

  • 23 de jul. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 6 de nov. de 2024

GetĂșlio Vargas, ao centro, toma posse no PalĂĄcio do Catete (RJ) em 31 de outubro de 1930. À direita de Vargas, sua esposa, Darci Vargas


A década de 30 foi cheia de anos ruins. Na Itålia e na Alemanha, as vozes de Mussolini e Hitler prenunciavam a intolerùncia nazi-fascista que levaria, em 1939, à eclosão do pior confronto da história da humanidade. Por aqui, Vargas realizava a primeira década de seus 15 anos de governo, inaugurando as primeiras leis que conformariam o arcabouço jurídico a atrelar o movimento sindical ao Estado.


Em 1935, o governo de GetĂșlio Dornelles Vargas vivia turbulĂȘncias em suas bases de sustentação polĂ­tica. Esfacelava-se lentamente a aliança entre os militares rebeldes de 1922 e 1924 e os polĂ­ticos de oligarquias regionais de fora de SĂŁo Paulo e Minas Gerais, que tornara possĂ­vel a vitĂłria da Revolução de 30. Os catarinenses sentiam que esvaziava a sua participação na fatia do poder. "A Revolução de 30 desarticulou a vida intelectual de FlorianĂłpolis, introduziu um grande contingente gaĂșcho no interior do estado, acentuando a subordinação local aos interesses do estado vizinho e, por consequĂȘncia, o afastamento de catarinenses dos centros de decisĂŁo do governo federal", afirma Glauco Carneiro. Se antes de 30, os catarinenses ecoavam suas opiniĂ”es pela voz de Lauro MĂŒller, JosĂ© Pinto da Luz, Arnaldo Pinto da Luz, Nestor Sezefredo Passos e Victor Konder, agora restava o silĂȘncio.


GetĂșlio, reeleito indiretamente, governava escorado nas transformaçÔes polĂ­ticas aplicadas pela Constituição de 1934. O controle definitivo sobre as manifestaçÔes de operĂĄrios que ganhavam mais e mais importĂąncia e sobre as divergĂȘncias polĂ­ticas evidentes em sua base de sustentação sĂł chegaria dois anos depois - a ·10 de novembro de 1937, quando a decretação do Estado Novo apagaria as luzes da democracia no paĂ­s durante oito longos anos.


A Constituição de 34 reconhecera a necessidade de atender a alguns interesses da classe trabalhadora. O paĂ­s deixava de -ser eminentemente rural, para desenvolver a indĂșstria nacional. Com o operariado, vieram novos sindicatos. Os funcionĂĄrios civis e militares da UniĂŁo tambĂ©m mostravam sinais de organização, reivindicando reajustes salariais. A Constituição dera Ă  UniĂŁo poderes para monopolizar indĂșstrias e nacionalizar bancos de depĂłsito e empresas de seguro. Adotava o princĂ­pio da pluralidade sindical e da completa autonomia dos sindicatos. Garantia pela primeira vez jornada de oito horas, repouso semanal obrigatĂłrio, fĂ©rias remuneradas, indenização por demissĂŁo sem justa causa e licença remunerada Ă  gestante. Proibia o trabalho a menores de 14 anos. A definição de leis precisas para regular o conflito entre capital e trabalho foi uma das principais preocupaçÔes do primeiro governo Vargas - como comprova a tabela ao lado. Mas, bem ao estilo cravo-e-ferradura de GetĂșlio Vargas, ao mesmo tempo em que consolidava avanços, o governo criava instrumentos de repressĂŁo das organizaçÔes populares. Foi atravĂ©s da Lei de Segurança Nacional, promulgada em março de 35, que o governo reprimiu com dureza a rebeliĂŁo comunista de novembro em Recife, Natal e Rio de Janeiro. Decretou o estado de sĂ­tio prorrogado sucessivamente atĂ© o golpe do Estado Novo.


Sob a ditadura, o cenårio do movimento sindical mudou radicalmente. A Constituição de 1937(a "Polaca", apelido que historiadores atribuem à sua inspiração no fascismo de Mussolini) estabeleceu novos paradigmas para a organização dos trabalhadores. A pluralidade foi substituída pela unicidade sindical e pela estrutura corporativa - organizada em sindicatos de base, federaçÔes e confederaçÔes, em pirùmides de categorias controladas pelo Ministério do Trabalho. Os pilares do corporativismo (ou Sindicalismo de Estado) estão presentes até hoje na legislação e no cotidiano dos sindicatos: unicidade (impedimento de organização de mais de um sindicato por categoria em cada base territorial), imposto sindical e o papel normativo da Justiça do Trabalho.


Da Constituição autoritĂĄria brotou a Consolidação das Leis do Trabalho, anunciada em 1Âș de maio de 1943. A CLT garantia direitos trabalhistas, mas detalhava a submissĂŁo dos sindicatos ao poder do Estado. Todas as organizaçÔes sindicais criadas com liberdade anteriormente precisaram buscar novos registros no MinistĂ©rio do Trabalho - como aconteceu com o Sindicato dos BancĂĄrios de Santa Catarina.



Em 31 de março de 41, assembléia geral com 31 bancårios catarinenses (mais de 2/3 dos só-cios) aprovou reforma do estatuto, conforme proposta feita por comissão eleita no final do ano anterior. Os bancårios que coordenaram a reunião eram Raul Wendhausen (presidente da mesa),João Baptista Brandão de Proença (secretårio da mesa) e Sylvio Rigueira Peluso. O sindicato tinha 144 filiados, cujos dados pessoais (idade, banco e outros itens) foram enviados para a DRT junto com a nova proposta de estatuto. A diretoria do Sindicato era integrada por João Cùndido Rodrigues, Rubens Lehmkuhl e Nelson Moreira Netto. Em 14 de março de 42, nova assembléia geral com 34 associados (mais de 2/ 3 dos quites) definiu nova reforma no estatuto, em vista de não terem sido aceitos pelo DNT os estatutos aprovados na assembleia anterior.


Com isto, o Sindicato entrava com tudo no modelo corporativista e, sob as graças de Vargas, seria condenado a permanecer debaixo das asas do Estado. O populismo nĂŁo era moleza. A cada ano, os sindicatos recebiam do governo um modelo de texto para enviar ao presidente GetĂșlio Vargas parabenizando-o pelo aniversĂĄrio, lembra o ex-presidente do Sindicato, Carmelo Faraco.


Os bancos no nascimento do capitalismo brasileiro

A polĂ­tica nacionalista de desenvolvimento econĂŽmico impulsionou o sistema financeiro a atividades de fomento, mas conduziu as instituiçÔes pĂșblicas a vĂ­cios que se tornariam permanentes.


Os jornais de abril de 1934 descarregavam baterias contra a "desastrosa administração da Caixa EconĂŽmica". O presidente da empresa, Solano Cunha, para os jornais estaria realizando uma administração "contrĂĄria aos interesses dos depositĂĄrios". As provas estavam nos balanços da empresa: "À sua entrada naquele instituto de crĂ©dito, havia um depĂłsito no Tesouro de 300 mil contos de rĂ©is e agora hĂĄ somente 130 mil contos, em vista dos emprĂ©stimos realizados, a maioria dos quais a Caixa EconĂŽmica nunca mais receberĂĄ, pois que 60 mil contos desses emprĂ©stimos sĂŁo irresgatĂĄveis". O Estado levantava suspeitas sobre um emprĂ©stimo de 30 contos de rĂ©is, fornecido a Batista Luzardo, homem de confiança do getulismo.


Os banqueiros da rede privada não tinham razÔes para lamentar do governo Vargas. A mais antiga instituição privada do país comemorava em 1944: "O período excepcional que atravessamos deu origem a um aumento råpido e extraordinårio de disponibilidades, permitindo maior incremento das operaçÔes bancårias", informava relatório da diretoria do Banco EconÎmico da Bahia, apresentado aos acionistas.


A mudança da moeda - o mil-rĂ©is foi substituĂ­do pelo cruzeiro em 1942 - trouxe problemas para os bancĂĄrios e mais estabilidade para os banqueiros. Enquanto os trabalhadores lutavam nas agĂȘncias para nĂŁo confundir as notas novas com as velhas (muito parecidas), nos escritĂłrios os banqueiros comemoravam a mudança do padrĂŁo monetĂĄrio como medida capaz de "contrabalançar o trabalho sorrateiro dos inimigos do Brasil, que procuravam demolir as bases da nossa economia". A guerra acirrava os sentimentos nacionalistas.


Com a destituição de Vargas, os banqueiros sonharam com os ares do capitalismo livre. Para o presidente do Banco EconÎmico , Miguel Calmon, o país vivia "uma fase de verdadeira estagnação econÎmica", apesar da "animação dos negócios". O problema era uma massa trabalhadora "desprovida de instrução adequada ao exercício de misteres mais desenvolvidos". A solução: incentivar a imigração, "visando o desenvolvimento de uma mentalidade capitalista no Estado".

 


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